O brasileiro Jorge Amado
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sexta-feira, 10 de agosto de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Desde que Jorge Leal Amado de Faria se foi muito coisa foi dita e escrita so bre ele. Mas não vi nenhuma mu lher prestar ao escritor uma ho menagem nas letras miudinhas do jornal. No entanto, nós, mulheres, devemos muito àquele que exaltou nossa feminilidade, nossa sensualidade, humanizou-nos, abrasileirou-nos em ardentes amores tropicais sem hipocrisias nem falsos pudores. Todas nós fomos de certo modo imortalizadas em Gabriela, mesmo as que se recusam à vida que ele fez pulsar em suas histórias. Nos versos finais que Jorge Amado dedicou ao personagem da ardente mulata Gabriela, disse: ''E a chamei de rainha.'' Qual de nós não gostaria de ser chamada assim?
Lembro-me do meu primeiro contato com o escritor, lá pelos meus 17 anos. Um vendedor ofereceu-me uma bela coleção de livros e fui seduzida primeiro pelas capas duras de couro vermelho com letras douradas. Não resisti. Comprei à prestação os 15 volumes. Foi um caso de amor à primeira vista. Li tudo, de fio a pavio, começando com ''Capitães da Areia''. Segui pela vida comprando cada livro, dos seus 30, que iam sendo lançados. Fui fiel à leitura de Jorge Amado.
Aos 17 anos, encontrei no escritor mais que literatura. Eu me identificava com ele ideologicamente. Meus ídolos eram também Josef Stalin, Fidel Castro, Che Guevara. Ídolos que mais tarde abandonei, horrorizada pela sua desumanidade e violência, como Jorge Amado também o faria sem deixar abdicar dos sonhos de uma vida mais bela e mais justa para todos.
Como li a respeito, o escritor que recebeu o Prêmio Stalin de Literatura, terminou sua fase comunista em 1956, ao tomar conhecimento do Relatório Kruchev sobre os crimes do stalinismo, e também por conta da invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, onde foram perpetrados atos de brutalidade que deixaram o mundo perplexo e fizeram vir a tona as distorções monstruosas da utopia igualitária comunista.
No seu repúdio ao totalitarismo, Jorge Amado foi corajoso e sincero, conservando porém todo o humanismo que sempre transcendeu dos seus personagens. Esse processo transformador e lúcido não ocorreria com Luís Carlos Prestes, exaltado pelo escritor baiano em ''O Cavaleiro da Esperança'', e que morreu aos 92 anos, em 1990, crendo nos mesmos dogmas ultrapassados que infelicitaram ou tiraram a vida de tantas pessoas que queriam ser livres.
No seu imenso amor pela Bahia, pode-se dizer que Jorge Amado foi também o escritor brasileiro por excelência. E através dos seus romances, toda a gama de tipos bem nossos, com seus defeitos e qualidades, sua malandragem e seus dramas, têm um quê de brasilidade, algo de familiar, como se fossem velhos conhecidos nossos. E essa marca de identidade nacional que Amado traduziu literariamente, valeu por muitos compêndios chatos de sociologia quando se trata de interpretar a ''alma brasileira''.
Mas Jorge Amado foi também um cidadão do mundo. Gostava de vinho francês e de ''outono da Europa'', o que não impedia de apreciar ''bolo de puba, bolo de aipim e canjica'' no café da manhã.
É. De fato, nós, mulheres, devemos muito a ele, que fez de nós o centro de sua obra e nos imortalizou não apenas em Gabriela mas também em Dona Flor, Tieta, Tereza Batista. E nenhum escritor brasileiro nos tornou tão atrativas e tão amadas.
Ao deixar esse mundo quando estava prestes a completar 89 anos, Jorge Amado parece ter morrido saciado de vida, pleno de vida bem vivida. Como escreveu Gilberto de Mello Kujawski em recente artigo: ''Jorge Amado, com sua sinceridade radical, com sua fidelidade à linguagem dos sentidos e das emoções, com aquela integridade superior que desafiava todas as contradições, com sua capacidade de dizer sempre sim à vida, apresenta uma nova proposta antropológica e gnoseológica, de fundo nominalista e barroco, na qual os opostos se somam e se conciliam entre si, fundindo-se no fluxo generoso da vida humana, vida que se quer cada vez mais viva e criadora''.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária em Londrina
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