O Brasil trabalha para pagar o que já gastou
Existe um mecanismo que transforma dívida gerenciável em dívida irreversível. Chama-se juros compostos
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sexta-feira, 13 de março de 2026
Existe um mecanismo que transforma dívida gerenciável em dívida irreversível. Chama-se juros compostos
Abraham Shapiro 

Oito em cada dez famílias brasileiras estão endividadas. Não é manchete alarmista. É retrato. E retratos não mentem, apenas incomodam quem preferia não olhar.
80,2% das famílias do país carregam alguma dívida. O maior percentual da história. Em cada dez casas do seu bairro, oito têm uma conta em aberto. Em pelo menos duas delas, mais da metade do salário já está gasto antes de o mês começar. Não em consumo. Em passado. Em dívida que não para de crescer enquanto a vida não para de cobrar.
Isso não é problema conjuntural, daqueles que o tempo resolve sozinho. É estrutural. Exige mudança de base: de comportamento, de política, de cultura. E mudança de base é a coisa que as sociedades mais resistem a fazer.
Existe um mecanismo que transforma dívida gerenciável em dívida irreversível. Chama-se juros compostos. E no Brasil, com Selic a 15% ao ano, ele opera como uma máquina implacável contra quem deve.
A lógica? Simples. Quem não paga hoje deve mais amanhã. Sem precisar contratar nenhum crédito novo. A dívida cresce sozinha, no silêncio, enquanto o devedor trabalha tentando alcançar um número que foge dele a uma velocidade maior que a dele.
O resultado? 29,6% das famílias brasileiras são inadimplentes. E os estudos projetam que 13% simplesmente não têm saída matemática dentro dos números atuais. Não é preguiça. Não é má-fé. É equação que não fecha e nunca vai fechar sem intervenção real.
A pesquisa Observatório Febraban revelou algo que ilumina o centro do problema: 55% dos brasileiros afirmam entender pouco ou nada sobre educação financeira. Ao mesmo tempo, 91% reconhecem que o tema é importante.
Esse paradoxo tem consequências concretas. Quem não entende juros compostos não percebe quanto paga a mais no parcelamento de doze vezes. Quem desconhece modalidades de crédito assina empréstimo pessoal a 8% ao mês quando poderia ter optado por algo três vezes mais barato. Quem não planeja não constrói reserva. E quem não tem reserva se endivida na primeira emergência, que sempre chega.
Há ainda um detalhe revelador: apenas 47% dos brasileiros associam educação financeira a algo além do controle de gastos. Investimento, patrimônio, proteção contra imprevistos, conceitos que definem a diferença entre quem apenas sobrevive financeiramente e quem constrói algo, aparecem com frequência muito menor nas respostas.
Dívida crônica em massa não é só problema pessoal. É problema de nação. Uma população com renda comprometida consome menos, adoece mais, 77% dos endividados relatam impacto direto na saúde mental, e retroalimenta o próprio ciclo de pobreza.
A solução não cabe em decreto nem em campanha de televisão. Exige juros menores, crédito responsável e, sobretudo, educação financeira levada a sério desde a infância.
Enquanto mais da metade do país não compreende os mecanismos básicos do dinheiro, qualquer solução opera na superfície.
E a bola de neve não espera.
Abraham Shapiro, consultor de empresas


