O Brasil é cada um de nós. Não há um Brasil à parte, separado dos cidadãos. Sem a sua gente o Brasil não seria. O Brasil não é os seus governantes, não é os que semeiam a intranquilidade e perturbam a paz social, porque estes são poucos, e os demais são muitos. São a maioria. Verdade que uma maioria crente demais de que perdeu o controle sobre o poder dos poucos. O Brasil marginal não é o Brasil, é apenas uma de suas facetas. O corpo inteiro do Brasil somos nós, que nos recusamos a capitular, embora ainda um tanto inertes e descrentes.
Somos punhados de boas pessoas em cada agrupamento familiar. Nossos vizinhos também são como nós e os vizinhos deles igualmente. Os desgarrados, então são minoria, por isso não têm o poder de manipular nossas vidas. Não podemos ficar em atitude contemplativa esperando que milagres aconteçam. Nós é que produzimos o milagre de nossa própria redenção. Não devemos pensar que o Brasil são os outros, porque a pátria é cada um de nós.
Temos que abandonar o comodismo da indiferença, porque somos todos usufrutuários, e se partilhamos a colheita temos que participar do plantio. Os agentes das mudanças não são os governos, mas nós mesmos. Não são os governantes que haverão de nos mudar, e sim nós que iremos mudar os governantes. Há um Brasil inteiro por fazer, e esta será missão dos brasileiros. Não nos salvaremos por medidas governamentais e nem por empréstimos externos, mas a partir das reformas que começarmos a fazer em nós próprios. O mais virá como inevitável consequência.
Nossa indiferença e nossa passividade diante dos fatos é que fazem triunfar as negatividades. Temos que sair em busca das respostas para nossas próprias perguntas; que nos unir em pensamentos e ações em busca do que queremos. Temos de nos encantar com a vida. Uma grande beleza nos preenche e nos cerca, mas precisamos estar atentos a isso. Devemos conspirar contra nosso vício de apenas resmungar, porque o resultado das lamentações será a proliferação e a cristalização da causa dos lamentos.
É tempo de assumirmos consciência da nossa responsabilidade como indivíduos. A indiferença é também uma forma de delito. Comecemos por exercitar a solidariedade, que pode se manifestar por pequenos gestos e pequenos atos. Solidariedade é como a pedra que lançamos num rio de águas calmas: ela gerará um pequena onda em círculo, que irá se propagando. Precisamos debandar do exército dos derrotistas. Em meio à turbulência que nos rodeia, temos de começar a rearrumar a casa em desordem.
Se melhorarmos o Brasil, estamos também contribuindo para melhorar o mundo, porque somos parte importante nesse processo, pela graça que temos de ser um povo pacífico por origem. Participar não significa apenas levantar bandeiras, mas também operar no silêncio de nossos atos, ante o mais crítico dos espectadores, que somos nós mesmos. Positivismo é dizer sim e é também dizer não, porque a passividade é irmã gêmea da cumplicidade. Nós podemos inverter a marcha dessa cumplicidade, porque, no dizer do poeta, cada um carrega em si o dom de ser capaz.
Temos prestado muita atenção ao negativismo, e dessa forma o robustecemos com o poder sinistro de nossa mente e de nossas palavras. Vamos redirecionar esse campo de força e extrapolar os limites individuais e avançar para um sentido de coletividade, pelo menos em nossos sentimentos. Não podemos ficar quietos em nosso canto, como é comum ouvir-se, porque somos todos interdependentes. Não temos o direito de reclamar se nos omitimos na tarefa de participar.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup