Nunca o Brasil viveu uma crise social tão profunda como a que enfrentamos em nossos dias. A ponto do Ministro da Fazenda, Pedro Malan, dizer que ‘‘as mazelas sociais nos humilham perante o resto do mundo e deveriam humilhar as elites’’. O desemprego, a fome e a violência, são apenas a ponta de um gigantesco iceberg submerso nas entranhas de uma sociedade que não suporta mais ver e conviver com a ausência quase total da ótica nos mais diversos segmentos da vida nacional. A corrupção desenfreada tornou-se algo comum em qualquer instância da vida pública. No imaginário virtual, pode-se afirmar que, se um dia o Brasil fosse fechado para balanço, não restaria no mais remoto lugarejo, uma repartição pública sequer que passasse pelo crivo de uma auditoria fiscal.
Não é preciso fazer qualquer exercício mental para se buscar uma falcatrua. Basta ligar a televisão ou abrir um jornal para conhecer o festival de escândalos que se abateu sobre a Pátria verde-amarela. O preocupante, é que tais questões têm levado o País a um desfiladeiro onde, de repente, perde-se a noção do bom senso; e daí, a tigrada, esta massa humana que perambula em busca de emprego e pão, vê-se de tal forma corroída pela falta de esperança, que encontra na violência a única forma de extravasar a insatisfação. O exemplo mais recente é o caso do Movimento dos Sem Terra, o MST.
Certamente ninguém desconhece que o MST está longe de ser um bando de vestais. Na verdade, é um movimento ideológico com fortes conotações políticas e engajamento partidário, cujos métodos aplicativos para reivindicar a reforma agrária no Brasil são os mais violentos, com a invasão de propriedades agrícolas e prédios públicos, num flagrante desrespeito à ordem social. A despeito, suas ações têm sido abominadas pela maioria dos brasileiros, inclusive aqueles que vêem a reforma agrária como uma das prioridades em políticas públicas. No entanto, isso não invalida a tese, vista a olhos nus, do descaso com que as autoridades tratam a questão fundiária no País. A rigor, este item – reforma agrária – é apenas o recaldo da falta de uma política agrícola sustentável e compatível às necessidades; assim como a violência é o subproduto do exôdo rural que acabou por inchar as periferias das médias e grandes cidades. Como se vê, vivemos num eterno círculo vicioso de causa e efeitos.
Por outro lado, a classe política, quer seja o poder Executivo ou Legislativo, parece viver no País do faz-de-conta. Em busca de holofotes ou palanques eletrônicos, se digladiam em torno de um salário mínimo imaginável de U$ 100,00 como se esse valor fosse suficiente para alterar o miserável e cruel padrão de vida que levam mais de 70 milhões de brasileiros.
Neste fogo cruzado, o presidente Fernando Henrique Cardoso vem a público para dizer que ‘‘a sociedade não aguenta mais tantas transgressões’’. Ora, o que surpreende é que o presidente venha descobrir tais coisas somente agora, seis anos após sua primeira posse. Por razões que costumamos atribuir aos ‘‘nossos valores culturais’’ – e neste campo o sociólogo FHC é entendido – temos o péssimo defeito cívico de nos acomodarmos docilmente ante os graves e sérios problemas nacionais. Assim não fosse, certamente outros segmentos organizados já teriam saído às ruas pedindo o mínimo de justiça social. Basta questionar o que fizemos para exigir a apuração da CPI dos anões do orçamento, dos precatórios, das denúncias sobre as benesses a banqueiros falidos, dos privilégios ao programa de privatizações. Ou então, o que estamos fazendo para acompanhar os resultados das CPIs de medicamentos ou do narcotráfico. Afinal, alguém acredita que o mar de lama que paira sobre a Prefeitura de São Paulo será apurado a contento e os responsáveis punidos?
No Brasil do ‘‘jeitinho’’, esperteza virou sinônimo de inteligência. Enquanto permanecermos assim, estaremos fadados ao mergulho em crises cada vez mais profundas, embora tenhamos sempre a sensação que já chegamos ao fundo do poço. O triste é que cada dia afundamos um pouco mais. Só o rei não vê.
RENÉ RUSCHEL é economista graduado e pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal do Paraná

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