O Brasil sediando a Copa do Mundo
Desde 1950, um longo período de 64 anos terá transcorrido em 2014, quando o Brasil sediará a Copa do Mundo. Por mérito, o país do futebol tem esse direito, e os brasileiros mais festivos comemoram, enquanto outros devem considerar que o Brasil tem primeiro que arrumar a casa para depois fazer a festa. Essa arrumação não é adequar os estádios e preparar toda a infra-estrutura paralela para receber as delegações e os turistas, mas diminuir intensamente as mazelas sociais, que tanto envergonham o Brasil ante os olhos das nações mais desenvolvidas.
O presidente Lula, que foi a Zurique fazer presença política em momento de decisão como este, está ufano pela conquista, e para um governante de seu perfil, este é um acontecimento consagrador. Em 2014 ele não será presidente mas poderá estar no páreo para voltar ao poder, depois da vacância de quatro anos. O calendário da Copa o contempla com essa possibilidade. O Brasil sediar um evento dessa grandeza é bom, embora tenha de fazer grande investimento, e todos sabem que existem prioridades mais relevantes. Porque quase tudo, no campo social, está por fazer: melhoria da saúde do povo, da educação, da moradia, do sistema de segurança, e sobretudo as bases do crescimento econômico, que gera emprego e renda.
Nos próximos sete anos esses males sociais não terão sido eliminados, porque nem sequer projetos nesse sentido existem. Com projetos as coisas já andam devagar, imagine-se sem projeto algum! Tudo indica que os visitantes de 2014 e os veículos de comunicação do mundo (que enfocarão intensamente o Brasil nos anos próximos do início da Copa) irão deparar-se com as mesmas misérias e mazelas de hoje, e mostrá-las. Já se imagina que as câmaras focarão as belezas do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Porto Alegre, de Goiânia e eventualmente de Curitiba - onde há bons estádios para sediar jogos da Copa - mas também os cortiços, os arrastões nas praias, os turistas sendo assaltados. Na cotação de lucros e perdas, não se sabe de que lado penderá a balança.
Não se pode detonar tudo, especialmente o Brasil abrigando um evento como o Mundial de Futebol - que movimentará capitais e gerará empregos temporários e a entrada de dinheiro externo - mas os aspectos mais feios do País estarão expostos. Uma empreitada como esta de sediar a Copa, que exigirá uma mobilização nacional e muito investimento, deveria ser acompanhada de uma cruzada da mesma intensidade para atenuar ou mesmo eliminar tantos males sociais que assolam o povo brasileiro.
Se um esforço extra é possível - como o que a preparação da Copa de 2014 exigirá, já a partir de agora - o presidente Lula poderia deflagrar idêntico movimento para restaurar tantas virtudes perdidas e que empobreceram a confiança e a auto-estima dos brasileiros. Ele, que está trazendo a Copa, tem mais obrigações a cumprir na parte que lhe cabe nestes três anos restantes de seu mandato.





