Agência O Globo
Porto Seguro - Durante cinco dias, 1987 índios já cadastrados de 75 tribos diferentes se juntarão a outros 2.200 indígenas de Coroa Vermelha e de aldeias vizinhas na Conferência dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil, um protesto contra o que consideram o início da invasão européia às suas terras. Para eles, essa marcha dos povos indígenas é uma espécie de retomada simbólica do Brasil. Os primeiros habitantes das terras brasileiras querem elaborar propostas para os próximos 500 anos.
‘‘Não temos motivos para comemorar as desgraças trazidas para o nosso povo’’, diz o presidente do Conselho dos Caciques, Nailton Muniz, da tribo dos pataxós hãhãhãe, do Sul da Bahia. ‘‘O problema da demarcação de terras deveria estar resolvido desde 93, segundo a Constituição de 88. Agora queremos estipular um prazo nosso, de uns quatro anos, para que isto aconteça’’.
O grande encontro dos índios vai acontecer primeiro em Brasília, nos dias 13 e 14 de abril, com manifestações em frente ao Congresso Nacional. Depois, eles se dirigem para Salvador, onde haverá novo ato no dia 17. No dia seguinte, terá início a conferência indígena em Coroa Vermelha. Alguns representantes de tribos distantes da Amazônia já iniciaram a marcha, que terá trechos percorridos a pé, de barco e de ônibus. Para hospedar tanta gente, foram alugados dois circos, que servirão de local de conferência. Eles começaram a se organizar no ano passado, após perceber que não teriam o que apitar na organização dos festejos:
‘‘Em 98, o Governo disse que talvez alguns índios participassem da comissão que organiza a comemoração, mas só a Funai foi chamada’’, diz José Carlos, representante dos macuxis, de Roraima. ‘‘Nossa intenção não é ficar atrás do Governo nos manifestando durante os festejos. Apenas vamos nos reunir para oferecer propostas’’.
‘‘Com o slogan ‘O Brasil que a gente quer são outros 500’, os índios reivindicam a regularização das terras. O representante dos índios trukás, Aurivan dos Santos, é um dos que bate ponto para ajudar a organizar a marcha. ‘‘O orçamento da Funai foi de R$ 4,6 milhões em 99. O Governo está gastando dez vezes mais nessa festividade. Para quê?’’
De 1500 para cá, mais de cinco milhões de índios foram mortos. Hoje, eles são cerca de 500 mil, de 220 povos diferentes.
(P. A.)
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