O Brasil que a gente quer
Abençoada seja a esperança que à vida dá sentido e motivação. Abençoados sejam os sonhos que mantêm a humanidade nas trilhas certas do seu destino. Abençoado seja o trabalho que sustenta o sonho e concretiza a esperança.
Sempre se sonhou e se trabalhou e há muitos milênios, quando o homem se fixou na terra e a fertilizou com seu trabalho e seu suor, o solo dadivoso transbordou em frutos e em flores, em sombras apaziguadoras e em sonhos de prosperidade. E desde os primórdios a terra alimentou seus filhos com a fartura de suas entranhas.
Em épocas remotas o tempo tinha outro ritmo que pulsava através do ato de plantar e de colher, das estações do ano, das batidas do coração. Mas aos poucos, da simplicidade da existência telúrica os seres humanos foram emergindo, construíram espaços urbanos complexos, povoaram o mundo. Milênios transcorreram entre esperanças projetadas, sonhos sonhados, trabalho incessante, e a somatória desses fatores produziu o progresso que hoje desemboca nesse início do século XXI. E se nesse mundo nada é perfeito, se as injustiças e desigualdades permanecem como atestado da ignorância humana, também é inegável que os benefícios hoje gerados por um processo milenar de erros e de acertos, de esforços e sonhos, poderão colaborar de forma nunca havida no passado com a atenuação de injustiças e desigualdades sociais.
Há coisas que mudaram e coisas que não mudaram. De um lado, nesta encruzilhada da história, altera-se o ritmo do tempo. Ingressa-se na era da pressa, da informática, da robótica, das estonteantes mudanças de comportamento, dos avanços científicos, das inovações tecnológicas, do conhecimento ao alcance de todos que desejarem ampliar seus horizontes mentais. No espaço trafegam artefatos variados e constrói-se uma estação espacial. O homem ensaia seus primeiros vôos em direção ao cosmo. Por outro lado, no âmago das transformações a vida continua vida verde, vida semente, vida raiz embalada no berço da terra essa fonte do pão nosso de cada dia, mãe generosa, promessa de garantia de amanhã.
Como no início, a sobrevivência se renova forjada no eterno ciclo das semeaduras, enquanto os homens mantêm a esperança e sonham sonhos de fartura e paz. Assim, eles continuam a palmilhar as trilhas certas do seu destino. Abençoados, pois, sejam aqueles que plantam.
Sobre a importância da agricultura, relembre-se o pensamento de Carlos Rangel em sua magistral obra O Ocidente e o Terceiro Mundo. Segundo esse autor, quando se fala em produtividade e prosperidade crescentes das economias capitalistas avançadas, são citadas apenas como desencadeadoras desse progresso as indústrias pesadas ou de alta tecnologia. Entretanto, afirma ele, esquecemos com frequência - em particular os economistas superficiais ou obcecados pela ideologia socialista - que a atividade econômica capitalista que experimentou o maior crescimento em produtividade, volume e valor de bens produzidos, no século XIX, não foi uma indústria no sentido lato do termo, mas a agricultura.
No Norte do Paraná foi justamente a agricultura que possibilitou a expansão e o progresso. A fertilidade das terras roxas, ideais para o plantio do café, foi o atrativo que provocou o povoamento da região. Seguindo a rota de expansão da lavoura cafeeira paulista, agricultores vieram em busca do Eldorado. Com o ouro verde, em que pesem todas as dificuldades havidas, eles construíram suas esperanças e seus sonhos de prosperidade para si próprios e para seus descendentes, e no seu rastro foi sedimentado um processo de ocupação de velocidade e dimensão surpreendentes.
Se no Norte do Paraná, sobretudo mineiros e paulistas, povoaram e dinamizaram a região, um fator externo se conjugou ao processo histórico e cultural: a vinda de um grupo de ingleses para esse recanto do Brasil onde a luxuriante mata escondia zelosamente o futuro.
Em 24 de setembro de 1925, a subsidiária da Paraná Plantantion Ltd, a Companhia de Terras Norte do Paraná, registrou seus estatutos, e ao dividir a terra em lotes relativamente pequenos, a Companhia afirmou explicitamente que sua política visava favorecer e dar apoio aos pequenos fazendeiros, sem por isso deixar de levar em consideração aqueles que dispunham de maiores recursos. Com isso conseguiu promover a única reforma agrária que deu certo no Brasil.
O primeiro núcleo da colonização brotou de uma clareira aberta na mata. Transformou-se em município em 3 de dezembro de 1934, e a 10 de dezembro do mesmo ano procedeu-se a instalação do município de Londrina, nome sugerido por Dr. João Sampaio a significar filha de Londres.
Em Londrina, em 1946, um grupo de cafeicultores criou a Associação Rural de Londrina, que em 1965 passou a chamar-se Sociedade Rural do Norte do Paraná e em 1970, devido a envergadura que as exposições agropecuárias já haviam atingido, recebeu a denominação de Sociedade Rural do Paraná.
Em 1955 realizou-se a primeira exposição da entidade. O evento se repetiria, mas só a partir de 1964, quando foi inaugurado o Parque Governador Ney Braga, tornou-se anual. Dificuldades climáticas, entraves governamentais e o impulso dado à pecuária com a importação de gado indiano conseguida a duras penas por Celso Garcia Cid e concretizada em 1961, foram transformando Londrina num opulento empório de gado bovino. Hoje a Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina caracteriza-se como a maior mostra de raças zebuínas e taurinas do País, e apresenta o que há de mais avançado em tecnologia animal.
A 41ª Exposição 2001, iniciada em 29 de março, e que termina neste domingo, 8 de abril, no rastro da tradição iniciada no já longínquo ano de 1955 revestiu-se de pleno êxito e superou as anteriores. E nestes dias, nos quais Londrina assume orgulhosamente um modo de ser country como se a cidade reverenciasse sua origem de Senhora do Ouro Verde, conjugaram-se o respeito pelo passado, a modernidade do presente e a projeção da grandeza e da prosperidade para o futuro. Sem dúvida, é esse o Brasil que a gente quer, pois abençoado seja o trabalho que sustenta o sonho e concretiza a esperança.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária
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