O Brasil prefere multar a educar - e os números não deixam dúvida
Geramos 16 vezes mais receita multando motoristas do que vendendo livros
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quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
Geramos 16 vezes mais receita multando motoristas do que vendendo livros
Abraham Shapiro 

Existe uma métrica fascinante para entender as prioridades de uma nação. Não é o PIB. Não é o IDH. É algo muito mais revelador. Compare quanto ela gasta punindo comportamento com quanto ela investe desenvolvendo pensamento.
No Brasil, arrecadamos R$ 38 bilhões por ano em multas de trânsito. No mesmo período, a nossa indústria editorial movimentou R$ 2,4 bilhões.
Traduzindo: geramos 16 vezes mais receita multando motoristas do que vendendo livros.
Só para o seu conhecimento, o mercado global de livros gira US$ 140 bilhões anuais, e nós representamos míseros 0,3% disso, mesmo sendo 2,7% da população mundial. Ou seja, somos sub-representados em leitura e super-representados em infrações.
Façamos um pequeno exercício. Se você divide R$ 38 bilhões por 215 milhões de brasileiros, dá R$ 176 por habitante/ano em multas. Se divide R$ 2,4 bilhões pela mesma população, dá R$ 11 por habitante/ano em livros.
Brasileiros gastam 16 vezes mais sendo punidos no trânsito do que comprando conhecimento.
Contudo, a ironia envolvida nesses cálculos fica ainda mais revoltante. Sabe quantas infrações você precisa cometer para acumular o equivalente ao preço de um livro cujo preço médio é de R$ 50? Menos de uma multa leve. E o brasileiro médio lê 2,4 livros por ano. Coincidentemente, este é o mesmo número, em bilhões de reais, que representa a nossa indústria editorial.
Algumas interpretações possíveis derivam daí:
A interpretação otimista. Somos um povo que ama tanto a liberdade que preferimos pagar multas a seguir regras restritivas. Romântico, não? Mas estatisticamente insustentável.
A interpretação cínica. Construímos uma economia baseada em fiscalizar infrações em vez de educar para preveni-las. Afinal, motorista educado não gera receita recorrente.
A interpretação realista. Temos uma relação totalmente “disfuncional” com conhecimento e uma relação lucrativa com punição. Ou melhor: sabemos que conhecimento é importante, mas não nos comportamos como se fosse.
Mas é possível pensar diferente. Se o governo aplicasse 10% do orçamento de multas em campanhas educativas reais – não aqueles vídeos dramáticos que ninguém assiste –, provavelmente as infrações seriam reduzidas em 30%. O problema é que a receita também reduziria em 30%. Aí é que está o diabo.
A conclusão não deixa de ser um tanto constrangedora. Deliberadamente ou não, o Brasil construiu um modelo de negócio baseado em punir ignorância em vez de financiar conhecimento.
Uma única multa por estacionar irregular custa um pouco mais de R$ 290,00. Com esse valor, você compraria seis livros. Mas qual das duas opções gera receita recorrente para o Estado? A multa, é óbvio. Sempre a multa. Motorista educado que respeita sinalização é prejuízo no balanço de todos os governos. Já o motorista que erra todo mês é “ativo de receita previsível”.
Acho que está claro, não?
Agora imagine o pensamento do gestor público: - “E se investíssemos os R$ 38 bilhões em educação de trânsito realmente eficaz? Infrações cairiam, no mínimo, 40%. Ótimo para a sociedade. Péssimo para o caixa.”
Existe este ser humano? Seria ele nascido de mulher?
Assim, é financeiramente mais vantajoso manter a população cometendo infrações do que ensiná-la a parar de cometer.
Brasileiro que lê, questiona. Brasileiro que entende a Constituição, cobra coerência. Brasileiro educado é eleitor perigoso. Por isso mantém-se a equação 16:1. Não é incompetência. É modelo de gestão. Sabe por quê? País que educa cidadão eventualmente precisa responder a esse cidadão. País que apenas multa, só precisa de radar. E radar não questiona.
Simples... e por ser Brasil, fácil também!
Abraham Shapiro, consultor de empresas


