Arlete Salvador
Um amigo psicólogo costumava comparar o Brasil a um ônibus num congestionamento de trânsito. A determinada altura, cansados de esperar que o ônibus ande, os passageiros resolvem descer. Desistem da jornada e procuram a porta de saída. Nesse momento, o motorista liga o motor e o veículo começa a andar. Os passageiros sentam-se novamente. ‘‘Agora, vai’’, pensam. Andam alguns metros e o ônibus pára outra vez. Os passageiros esperam, e esperam, e esperam. Desanimados, resolvem descer. O ônibus torna a andar alguns metros. E assim as horas passam sem que ninguém saia do lugar.
Estamos num daqueles momentos em que os passageiros sentam-se mais próximos da porta de saída. O ônibus com a excursão brasileira já nos enganou quando ligou os motores durante a eleição do presidente Fernando Collor. Era a primeira presidencial direta depois de 30 anos de ditadura. Para boa parte da população (a que votou nele, claro), o ônibus estava andando. Parou no impeachment, recheado de denúncias de corrupção.
Depois, vieram Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real (seja lá quem for o pai da idéia). E o motor do ônibus rangeu de novo. Os passageiros sentaram-se, confiantes na moeda forte. Muita gente ficou pelo caminho, desempregada ou falida, mas o importante é que o ônibus parecia (sempre parece) estar na estrada. E não é que parou de novo? Se alguém tinha dúvidas, elas foram dissipadas nos últimos dias com o anúncio de aumentos cavalares nas tarifas privadas, como luz, telefone e combustível.
Não há uma só categoria profissional no País que tenha conseguido reajustes salariais da mesma altura dos reajustes conseguidos por esses setores. Na prática, os trabalhadores estão ganhando menos. E ainda têm que se considerar privilegiados por terem emprego.
Enquanto o ônibus não anda, há algumas distrações para os passageiros desanimados. Ouve-se sempre alguém dizendo que o trânsito não está tão ruim assim, é questão de minutos para retirarem aquele outro veículo atravessado na pista. Depois disso sim, os passageiros verão como a velocidade do ônibus vai deslanchar e irão todos para o paraíso. Santa paciência têm os passageiros. Já pagaram a passagem, mesmo. Vão ficando.
Desta vez, não só empacamos como estamos andando para trás. Os índices de desemprego são os maiores já registrados na história da jornada desse ônibus. A renda dos trabalhadores, engordada durante a euforia do Plano Real, está minguando. O que nos oferecem de distração são os maravilhosos números econômicos, como a queda do PIB menor do que a prevista no início do ano e inflação de um dígito. Como ninguém come ou veste índices, é pouco.
Os passageiros estão próximos de desistir, como demonstram as pesquisas de opinião sobre o desempenho do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não vai demorar muito para o ônibus andar de novo. Acontece sempre quando os passageiros não aguentam mais esperar e procuram a porta de saída. Parece de propósito, para que ninguém nunca saia do lugar.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília

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