O Brasil não precisa de um salvador
A crise econômica e política traz um componente perigoso na administração de um país com uma democracia ainda incipiente: a descrença. Ela torna o ambiente político propício ao surgimento de um messias capaz de manejar grande leva da população a acreditar em promessas de salvação nacional. Ainda mais no contexto de uma corrupção gigantesca tornada pública pela Operação Lava Jato. São tantos os casos e os envolvidos/citados no megaesquema de empresários a políticos graúdos como o ex-presidente Lula e o atual Michel Temer, passando por oposicionistas como o tucano Aécio Neves que o eleitor não consegue enxergar um horizonte na eleição presidencial de 2018.
E é dessa seara que se aproveitam os tais "salvadores da pátria". "Nossa cultura política é ainda marcada pelo paternalismo porque o eleitor busca um político para ter proteção, um verdadeiro pai", afirma o professor de Sociologia Rogério Baptistini, da Universidade Mackenzie (SP), em reportagem publicada na edição da FOLHA dessa segunda-feira (14). O sociólogo alerta que, em pleno século 21, o Brasil ainda assiste às velhas práticas do início da República. Ainda está enraizado em nossa sociedade o apadrinhamento político e as oligarquias familiares mantêm o seu poderio. A transferência de poder não fica restrita à questão sanguínea. Como exemplo, o professor cita o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que escolheu Dilma Rousseff como sua herdeira política.
O sociólogo aponta que há elementos paternalistas tanto em Lula quanto em João Dória (PSDB), prefeito de São Paulo, que desponta com a aura de "gestor eficiente e figura apolítica". Ambos, segundo o analista, possuem características herdadas do ex-presidente e ditador Getúlio Vargas, que encarnou como poucos a figura de "pai do povo". "O cidadão vê o político no andar de cima, e não a si próprio como membro ativo das transformações", observa o sociólogo.
O eleitor deve ficar alerta para esse ponto: a democracia exige participação ativa e fiscalização permanente. O agente público deve estar a serviço do Estado e não dos próprios interesses. Nas eleições do próximo ano, a velha ciranda de promessas estará a pleno vapor. Então, é preciso que a sociedade diga em alto e bom som: não precisamos de um salvador.





