Acabo de ler uma análise da revista The Economist sobre a economia brasileira. A análise contraria duas narrativas convenientes. A primeira, divulgada pelos adversários do governo, anuncia uma catástrofe iminente. A segunda, promovida pelo próprio governo, tenta vender a ideia de que o país reencontrou o caminho da prosperidade. Nenhuma das duas resiste aos fatos.

O Brasil não está à beira do colapso. Mas também não vive um milagre econômico.

A EIU (Economist Intelligence Unit), divisão de pesquisas econômicas do grupo que publica a revista, estima que o país cresça aproximadamente 2% ao ano no médio prazo. É uma taxa positiva, porém medíocre para uma nação emergente, com renda per capita relativamente baixa, território continental, abundância de recursos naturais e mais de 200 milhões de consumidores.

O problema brasileiro não é falta de potencial. É incapacidade de transformá-lo em produtividade.

Temos agricultura competitiva, petróleo, minérios, energia relativamente limpa, reservas internacionais elevadas, sistema bancário sólido e um Banco Central tecnicamente respeitado. Além disso, o país oferece oportunidades relevantes em biocombustíveis, minerais estratégicos, tecnologia agrícola e centros de processamento de dados.

Apesar dessas vantagens, avançamos lentamente. A baixa qualidade da educação, a infraestrutura deficiente, a insegurança jurídica, o protecionismo, a complexidade tributária e a instabilidade regulatória reduzem o investimento e impedem ganhos consistentes de produtividade.

A fragilidade mais séria, contudo, está nas contas públicas.

O governo aumenta despesas para estimular o consumo, sustentar benefícios e preservar apoio político. Esse gasto adicional eleva a dívida e alimenta a desconfiança quanto à capacidade futura de pagamento. O mercado passa a exigir juros maiores para financiar o Estado. As expectativas de inflação pioram e o Banco Central é obrigado a manter a taxa básica elevada.

Surge então o conhecido círculo vicioso: o governo tenta acelerar a economia com uma mão, enquanto o risco fiscal obriga o Banco Central a freá-la com a outra.

A Selic permanece extraordinariamente alta, apesar dos cortes recentes. Isso encarece o crédito, desestimula investimentos produtivos, aumenta a inadimplência e transfere uma parcela crescente do orçamento público para o pagamento de juros.

Não há risco imediato de o Tesouro deixar de pagar suas obrigações. Essa hipótese pertence mais ao discurso político do que à análise econômica responsável. O verdadeiro perigo é menos espetacular e, justamente por isso, mais tolerado: acostumarmo-nos a uma dívida crescente, juros reais exorbitantes e expansão econômica de apenas 2% ao ano.

O mercado de trabalho continua resistente e a inflação mostra alguma desaceleração. Esses resultados favorecem o presidente Lula, que pretende transformar emprego, renda e programas sociais em argumentos para sua reeleição.

Entretanto, existe uma distância incômoda entre os indicadores oficiais e a percepção da população. O PIB pode crescer, mas o cidadão julga a economia pelo preço dos alimentos, pelo aluguel, pela prestação vencida e pelo custo do crédito. Estatística positiva não enche a geladeira nem reduz a angústia de quem termina o mês no vermelho.

A conclusão da The Economist é mais equilibrada do que os slogans partidários. O Brasil está melhor do que afirmam os catastrofistas e pior do que anuncia o governo.

Não nos falta riqueza. Falta disciplina para escolher prioridades, coragem para reformar o Estado e competência para converter recursos em prosperidade.

Crises despertam sociedades. A mediocridade prolongada, ao contrário, anestesia. O maior risco brasileiro não é quebrar amanhã. É perder mais uma década acreditando que crescer pouco, gastar muito e pagar juros absurdos constitui alguma forma aceitável de normalidade.

Abraham Shapiro, consultor de empresas

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