Alguns dados liberados, no final de abril, pelo Banco Mundial sugerem que a desvalorização da nossa moeda frente ao dólar, em janeiro passado, retirou do mercado brasileiro cerca de dez milhões de consumidores de um contingente maior (estimado por alguns em 30 milhões), que havia sido agregado, em 1994, quando foi criado o Plano Real. Mas não foram só os mais pobres que pagaram a conta da desvalorização cambial. Sobrou também, como já é tradição, para a classe média assalariada. De acordo com levantamento feito pelo ‘‘New Herald Tribune’’, publicação editada em Miami, ela está encolhendo na América Latina inteira. Do México à Argentina, passando pela América Central, Caribe e América do Sul, o subcontinente está mais pobre.
Nos países do Primeiro Mundo, há sete pessoas consideradas pobres (para padrões de nações desenvolvidas, é claro) para cada habitante de classe média. Na América Latina e nas demais regiões onde há países considerados emergentes (Sudeste Asiático, Oceania, Sul da África, dentre outras), tal proporção, no mínimo, dobra, ou seja, existem 14 pessoas pobres (nos padrões aceitos para emergentes) para cada cidadão remediado. Essa tendência, se mantida, é preocupante. Ela significa maior empobrecimento de populações cujas rendas ‘‘per capita’’ já são consideradas baixas. Não é difícil, portanto, prever as consequências sociais dessa ‘‘loteria da miséria’’.
O segundo ponto do relatório do Banco Mundial prevê também a redução dos investimentos diretos e em outras regiões de países emergentes ao longo deste ano. Essa questão é menos preocupante do que o aumento da pobreza. É que em quase todos eles estão em curso ajustes e reformas nas economias locais, atingidas em maior ou menor grau pelas crises cíclicas da especulação mundial, iniciadas, em 1995, no México; e seguida pelo colapso dos ‘‘tigres‘‘asiáticos, em 1997: pela moratória russa, em 1998; e, finalmente, pela desvalorização da moeda brasileira, em janeiro último.
Após alguns elogios e as recomendações de praxe, o Banco Mundial manda um recado para o governo brasileiro: o pior da crise cambial já passou, é verdade; mas nada de euforia. Para bom entendedor, o aviso é claro: o sucesso do ajuste fiscal, conseguido a duras penas e com enormes sacrifícios para todos, durante o primeiro trimestre do ano, não pode, como infelizmente já virou praxe entre nós, ser motivo para baixar a guarda e relaxar. Há um longo caminho ainda a percorrer. Ou seja, é preciso concluir o ajuste, estendê-lo a Estados e municípios antes de voltar a crescer.
No âmbito do Mercosul, a desvalorização cambial brasileira também gerou uma série de pressões de nossos parceiros comerciais, particularmente dos argentinos. Elas concentram-se nas questões do aço, do açúcar e dos veículos produzidos no Brasil. Tais controvérsias precisam ser resolvidas de maneira satisfatória, caso contrário, após o espetacular sucesso do bloco de parceiros comerciais do Cone Sul, o Mercosul poderá enfraquecer-se até transformar-se aos poucos em uma nova Aladi (Associação Latino-Americana de Integração), que se limitou a negociar algumas listas de produtos setoriais para serem desgravados.
Há condições de reverter esse cenário. Depende só de nós.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
E-mail: [email protected]

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