O Brasil entre dois mundos
É conhecida a historinha em que o sagaz José Maria Alkmim, do velho PSD mineiro, encontra no aeroporto o não menos sagaz Benedito Valadares, para quem lança a artimanha: Ah, você está me fazendo crer que vai a Barbacena; acontece que eu sei que você realmente vai a Barbacena. A tática, conhecida como engano de segundo grau, expressa um jogo de soma zero entre a sagacidade de um e a malandragem do outro. Mais ou menos algo como: Quando você pensa que está indo, eu já estou voltando. Ou ainda: Sou capaz de prendê-lo no mesmo laço que você quer me laçar.
A tática de emboscada ainda se faz presente em nossa história. Somos um país sem feição totalmente definida. Sua aparência é a de uma fruta que amadurece de maneira desigual, com partes quase apodrecidas e outras ainda verdecidas. A parte podre provém das mazelas de nossa colonização, dentre elas o individualismo egocêntrico, o compadrismo, o mandonismo, o fisiologismo, a corrupção, a desconfiança um do outro, fatores esses que maltratam a alma nacional.
A banda verde da fruta, por sua vez, é formada por contingentes éticos e recebe o oxigênio de uma fé inquebrantável, revigorada por ondas de religiosidade e crença, que funcionam como imensas fortalezas de proteção de populações marginalizadas e sofridas. É uma espécie de antídoto espiritual para enfrentar as carências materiais. Essa corrente de natureza mística flui de maneira circular pelas classes sociais e categorias profissionais, administrado por uma monumental cadeia de entidades intermediárias que passam a tomar o lugar dos combalidos partidos políticos e a comprovar um estado bastante avançado de nossa organização social.
A vertente ética procura se contrapor aos climas de desconfiança e ódio, às injustiças e à desordem social que se avoluma com o descumprimento das leis, enfim, ao quadro de tradições caóticas pintadas de maneira tão forte por Simon Bolívar, há cerca de 150 anos: Não há boa-fé na América, nem entre os homens nem entre as nações; os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida um tormento.
A agenda do nosso cotidiano ressuscita o grande timoneiro. Basta ver a batalha em que se transformou a eleição para as presidências do Senado e da Câmara. Basta ver a barbárie a que estamos sendo submetidos pela crescente tendência de fulanização da política, que não é senão a expressão do poder dos homens tomando o lugar do poder das idéias.
É deplorável constatarmos que o pleito de 2002 começa a se transformar numa luta renhida entre personagens e não em um embate plural e denso em torno de programas. Não se defende nem se ataca o quê. As investidas são contra e a favor de quem. A quebra do sigilo bancário, sem autorização judicial, estúpida desmoralização da Carta Magna, é o atestado de uma cultura política farisaica, espetacularizada, marketizada, demagógica, preocupada com efeitos pirotécnicos. Nem se trata, nesse caso, de polemizar a respeito do que é legal, ético e legítimo. Trata-se de cumprir a lei e respeitar o estado de direito. Se a lei é injusta, é justo combatê-la, mas não violá-la.
O Estado moderno é incompatível com o império da baderna. A não ser que decida ser um apêndice de retrocesso em um mundo que se torna cada vez mais interdependente e, portanto, atento ao fortalecimento da autonomia individual, das conquistas da civilização contemporânea, entre as quais se inserem os direitos individuais e sociais. A face verde e nobre do País há que maturar sob a proteção de organismos que não desnaturem o fluxo e o ritmo evolutivo das instituições e ainda sem a retórica personalista que, frequentemente, nos lembra o passado das capitanias hereditárias.
Nossas lideranças, com raras exceções, estão carcomidas. São retratos de 20, 30, 50 anos na parede esburacada. Como já disse o sábio Zaratustra, mil caminhos existem, que ainda não foram palmilhados, mil saúdes e ocultas ilhas da vida. Ainda não esgotados nem descobertos continuam os homens e a terra dos homens. Quem sabe nesse alvorecer de novo milênio, não encontremos novas ilhas, novos líderes, outros caminhos para palmilhar?
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
[email protected]





