O Brasil, enquanto consciência coletiva, está caminhando para a paralisia, como o pequeno camundongo frente à cobra (sua predadora) que está prestes a devorá-la. Assisti às recentes reações da população frente às atitudes moralmente legítimas dos pobres (e também fortes) corajosos caminhoneiros do País como se estivesse assistindo um filme de catástrofe. Na simples ameaça ao desabastecimento das cidades pela greve dos nossos irmãos foi vista uma corrida a postos de gasolina e supermercados em muitos lugares como se estivéssemos próximos a uma catástrofe nuclear. Acabei eu mesmo (num movimento de manada como o ser humano está, como os bois que cultivamos nos pastos) indo a um posto de gasolina. Conversei com o frentista que me disse que não havia o porquê temer porque a gasolina (no nosso caso) dificilmente acabaria aqui a médio prazo, uma vez que este combustível chega à região por trem e que muitos sabiam disso e mesmo assim as filas se acumularam.
Mas o que tem isso a ver com o transe em que vivemos? Não sairemos da atual situação social e coletiva em que estamos sem ter conhecimento de como funcionamos e essa resposta da população a uma ameaça da escassez é exemplo disso.
Vivemos hoje hipnotizados, não sabemos quem somos, quais são as nossas reais necessidades e estamos, talvez como nunca, vivendo um ambiente de ameaça e estresse. Garanto que na consciência de muitos brasileiros paira uma sensação mista de desamparo e medo do futuro, despertando o medo de um grande monstro que habita na nossa consciência, o medo do caos.
Dentro de nós sempre existiram, e estão em pleno funcionamento, quatro medos primitivos, fundamentais.
O primeiro deles é o medo da noite, uma vez que ancestralmente tivemos que nos proteger dos nossos predadores (o segundo medo), que nas noites se utilizavam da sua vantagem biológica para nos atacar e nos devorar. O terceiro é o medo do abandono parental (o que nos faz nos manter muito infantis, muitas vezes solicitando estruturas de poder e controle para que nos sintamos amparados) e o quarto medo é o medo da desordem, da perda do controle e da confusão que pode sair das nossas mentes (muitas pessoas vivem em estado completamente confusional) e habitar as ruas. Disso emerge um gigantesco medo (que é uma força negativa da nossa natureza) e que nos paralisa, fazendo com que retrocedamos na nossa evolução.
Temos que encarar o momento em que vivemos ao questionar os predadores (internos e externos) que nos controlam, sem medo do caos. A natureza humana tem capacidades e potencialidades imensas, obviamente apagadas e adormecidas, mas temos que pensar o atual momento da nossa história como uma oportunidade positiva para o crescimento.
Somente o despertar da consciência individual e coletiva vai fazer com que saiamos deste transe hipnótico generalizado em que vivemos. Temos que repensar o nosso estilo de vida, as nossas relações, o não estímulo ao nosso cérebro primitivo e o estímulo ao despertar da consciência.
Temos que ter noção de que vivemos em uma bola de pedra (planeta Terra) que gira sobre o seu eixo e em envolta de um astro (sol) e que todos estamos ligados por uma consciência superior que pode ser alcançada, com coragem amor e respeito. Dar vazão ao medo, sobretudo ao medo do caos, só vai nos manter mais reféns de nós mesmos.

MARCOS LIBONI é médico psiquiatra e professor de Psiquiatria e Bioética do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina


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