Se há uma palavra que me dá calafrios é reforma. Desde aquelas em casa, que empoeiram os móveis, nunca terminam no prazo e sempre custam mais do que o previsto, até as reformas políticas e econômicas. Aliás, as segundas são piores do que as primeiras. Afinal, se é em casa, é possível estar no controle dos acontecimentos. As crianças são mandadas para a casa dos avós, pressiona-se o pedreiro, compram-se azulejos de segunda linha; dá-se um jeito. As reformas políticas e econômicas caem sobre a nossa cabeça sem que possamos reagir.
A palavrinha reforma está na boca de todo mundo outra vez. A lista das áreas sob a mira dos pedreiros é a de sempre. A Previdência Social, essa senhora envelhecida e caquética, é o alvo principal. Seguem-se depois o sistema tributário e o eleitoral. A idéia da reforma administrativa também vai e volta. Sem contar a Constituição. Escrita em 1988, é apontada como o vilão maior, uma ameaça à suposta modernização do País. Nada de muito novo num Brasil em obras eternas.
Numa casa velha, reformas são sempre necessárias. Mas quem já passou por algo assim sabe que remendos não resolvem o problema. É preciso trocar o sistema elétrico, adaptá-lo às novas exigências do uso do computador e outros eletrodomésticos. É fundamental substituir os canos envelhecidos e entupidos, o que implica quebrar paredes, mudar revestimentos e pisos. De certa forma, significa reconstruir a casa. Os remendos e quebra-galhos duram pouco tempo, desperdiçam dinheiro e torram a paciência do morador.
As reformas políticas ou econômicas dos últimos anos ficaram apenas nos remendos. A Previdência Social, para mencionar apenas o exemplo do momento, já foi picotada, espremida, torcida, retocada, lipoaspirada. A forma de remuneração aos aposentados (da iniciativa privada, é preciso lembrar) mudou inúmeras vezes, sempre para menos. Os prazos de contribuição e a idade para ter direito ao benefício também passaram pelo facão há cerca de um ano.
Tem sido assim com todas as outras reformas. Nem bem termina uma, vem outra, ao sabor das necessidades da crise do momento e do governo de plantão. Nada mais à mão de um governo do que as rachaduras nos pilares de sustentação da vida brasileira para justificar eventuais fracassos. O que nenhum deles fez até agora, e desconfio que não fará, são reformas profundas, para troca dos sistemas elétricos e hidráulicos da casa.
Nunca se fizeram mudanças sérias para colocar de pé uma Previdência Social duradoura, capaz de oferecer um mínimo de segurança ao contribuinte. Também não estão à vista propostas de longo prazo para o sistema tributário, de forma a deixá-lo justo e igualitário, sem benefícios para este ou aquele setor.
Quando uma casa velha passa por boa reforma, o morador esquece os dissabores do pó e do atraso nas obras ao ver o resultado. A sensação, quando todo o entulho é retirado, é de alívio. A casa fica em ordem e pensamos que valeu a pena todo o sacrifício e o dinheiro gasto nas obras. As reformas econômicas e políticas, de tão superficiais e casuísticas, só trazem o sentimento frustrante de tempo e dinheiro jogados fora.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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