O Brasil e os intelectuais
Rubem Azevedo Lima
Por timidez, medo ou desencanto, parte da ‘‘inteligentsia’’ brasileira entregou-se, nos últimos anos, em suas análises sobre o Brasil, ao sentimento de fatalismo da história e acha hoje que o país está condenado ao papel de colônia dos Estados Unidos. Tal postura, às vezes não explícita, difundiu-se e muitos brasileiros se acomodaram a esse pretenso destino, tornando-se indiferentes e céticos quanto às possibilidades de preservação da soberania nacional.
Os EUA podem muito, mas não podem tanto. O general americano Joseph Ashy, chefe do Comando Espacial de seu país, pôde afirmar, com a mesma arrogância de outros aventureiros, que os EUA ‘‘estão prontos a combater do espaço, com armas mortíferas’’. O subsecretário da Força Espacial, Keith Hall, acrescentou, no mesmo tom, que seu país ‘‘tem o domínio espacial, gosta dele e o manterᒒ.
Sem o apoio do povo americano, essa nova ameaça à paz mundial e à vida na Terra – que demanda muito dinheiro – talvez jamais saia do papel. Trata-se de projeto de dominação espacial do presidente Clinton – baseado na idéia da ‘‘guerra nas estrelas’’ de Reagan – que recebe, por ano, US$ 4 bilhões. Agora terá mais US$ 5,6 bilhões, anualmente, até 2005. Há meses, a ONU aprovou, por 138 votos e a abstenção apenas dos EUA e de Israel, resolução que define o espaço como patrimônio da humanidade, nele só se admitindo pesquisas para fins pacíficos.
Há, pois, uma perspectiva assustadora, mas não razão para o Brasil desistir de sua soberania e deixar de lutar, sem xenofobia, para preservá-la. Infelizmente, muitos brasileiros falam até que o caminho para a eleição do sucessor do presidente Fernando Henrique passa pela Casa Branca.
Deve-se isso, talvez, à evidência de apoio tácito dos EUA ao continuísmo de FHC, quando se aprovou a emenda anticonstitucional das reeleições, e ao fato de que nossa economia quase se liquefez, ao integrar-se no dogma da globalização neoliberal. Esse, aliás, foi o instrumento político-militar que também arrasou a ex-URSS, sem um tiro, ao impor ali, simplesmente, a troca de sua economia planificada pelo livre mercado.
Em quadro de tal devastação, muitos de nossos intelectuais – fração dominada da classe dominante, como se disse dos homólogos franceses – fecharam-se, majoritariamente, em seus casulos, silenciaram e se esqueceram dos interesses do povo e do País. Outros, porém, apesar de exercerem atividades absorventes, dão exemplo de coragem e espírito de luta.
É o caso do presidente do Supremo Tribunal, ministro Carlos Velloso, que, homenageado no Instituto dos Advogados, em Brasília, apontou o rumo para os indecisos, ao condenar a ‘‘elite reacionária e de caçadores de bruxas, com serviçais desqualificados’’, que agride a Justiça, juízes, advogados e membros do Ministério Público, promovendo ‘‘autênticas canalhices’’.
Velloso admitiu, entre nós, a existência do clima de ‘‘intimidação geral’’, de que falou o presidente da OAB, Reginaldo de Castro, mas advertiu: ‘‘A sociedade brasileira esteja certa de que jamais nos deixaremos intimidar e que não desertaremos do compromisso de bem guardar a Constituição e de bem proteger e garantir os direitos fundamentais de nosso povo’’.
Sem tais direitos, aliás, qualquer cidadão excluído talvez prefira ser súdito num império menos injusto. Bom seria se cada intelectual voltasse a fazer e a dizer o mesmo, em sua área, pelo Brasil e pelos brasileiros.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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