O Brasil depois das eleições
A definição da equipe econômica que integrará o governo federal neste 2015 dá início a uma nova etapa para o Brasil, que determinará o ritmo e intensidade dos ajustes necessários para que o país retome o caminho do crescimento. É a hora de elaborar estratégias, definir prioridades e dar respostas aos problemas e desafios econômicos que polarizaram os debates durante a disputa eleitoral.
Se a adoção de políticas econômicas direcionadas ao aumento do consumo interno se mostrou acertada para ajudar o país a atravessar o período mais agudo da crise financeira mundial, compensando a retração dos investimentos e da demanda internacional por produtos brasileiros, hoje o quadro é substancialmente diferente. Não bastam medidas anticíclicas pontuais, precisamos de uma estratégia para crescer de forma sustentável e consistente. Precisamos, na verdade, recuperar a competitividade nacional, investindo em inovação e no incremento da produtividade de nossa economia. Não podemos simplesmente continuar a fazer mais do mesmo.
A sustentação de um ciclo de expansão econômica de longo prazo dependerá da capacidade de nos posicionarmos competitivamente entre as economias desenvolvidas e emergentes. É preciso atuar quantitativa e qualitativamente sobre as condições da oferta de bens e serviços, e não apenas sobre sua demanda. Sem a retomada dos investimentos produtivos, corre-se o risco de o país limitar-se a viver apenas breves momentos de expansão da atividade econômica relacionados a fatores conjunturais como a elevação dos preços internacionais das commodities que o Brasil exporta ou a utilização de instrumentos de estímulo ao consumo interno. Quando estes fatores deixam de existir, tais "voos de galinha" são interrompidos, sem terem conseguido nem gerar riqueza nem abrir caminhos sustentáveis para o desenvolvimento da economia do país.
Tal mudança de patamar da estratégia econômica é mais do que nunca necessária para o Brasil, em razão da conjuntura tanto doméstica quanto internacional. A demanda dos países industrializados ainda não voltou aos níveis pré-crise, como é o caso, por exemplo, da União Europeia. A China parece estar redirecionando sua economia para um modelo mais ligado à oferta de serviços e ao consumo doméstico, reduzindo o ritmo de importação de commodities, o que não é uma boa notícia para as exportações brasileiras.
É preciso restabelecer as condições favoráveis de retomada dos investimentos produtivos no Brasil, com foco na inovação e em ganhos de produtividade. Nosso desafio mais urgente é fazer mais com a mesma quantidade de recursos, tanto no setor privado quanto no público. Um ponto absolutamente necessário para isso é a consolidação de um ambiente de negócios que inspire confiança, com regras bem definidas. Outro é o equacionamento dos fatores que afetam a eficiência econômica, como a carga tributária, os gargalos logísticos e a qualidade da educação. Para isso, o governo federal precisa escolher prioridades, focando sua atenção nos temas que comprometem o potencial de crescimento do país.
Se observarmos as nações desenvolvidas, verificamos que estas se destacam em termos de produtividade total dos fatores. Ou seja, são países que tornaram suas economias mais eficientes e produtivas e contam não só com a eficácia das máquinas e equipamentos de seu parque industrial, mas também com o acesso a insumos mais sofisticados e adequados, com mão de obra bem educada e formada, infraestrutura adequada e custos justos de transação.
Sem que isso seja feito, corremos o risco de ficar cada vez mais para trás em termos de produtividade e competitividade. E estaremos condenando o Brasil a ser o eterno "país do futuro", sempre à espera do próximo boom das commodities.
CLEDORVINO BELINI é presidente da Fiat Chrysler Automobiles para a América Latina
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