O Brasil democrata é de todos
A nossa democracia já demonstrou que apesar de jovem, é forte
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
A nossa democracia já demonstrou que apesar de jovem, é forte
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
A noite do dia 25 de outubro, Dia Nacional da Juventude, será inolvidável e repleta de significado. O Brasil mostrou ao mundo que não é de vencedores contra perdedores, nem de direita contra a esquerda, derrubando os muros da cizânia, embora alguns ainda teimem em não enxergar. A polarização que se manteve até ao final é artificial e se esfarelou nas primeiras horas da noite. O tsunami de jovens que inundou as principais praças das grandes cidades e a teimosia dos idosos em regatar sua bengala para comparecer às urnas não é detalhe neste processo. Houve um abalo sísmico de cidadania, que mexeu nas placas tectónicas da política brasileira.
O Brasil nunca foi o que demonstrou ser desde 2018. Houve um evento atípico que infeccionou as células da política partidária e que rasgou o tecido social da nação, transformando qualquer um em inimigo do outro e inviabilizando relacionamentos civilizados em que as diferenças sempre fizeram parte da convivência. Neste ano, uma família cuja passado nebuloso pairava entre a obscuridade e o obscurantismo, valendo-se do desgaste da política tradicional e de seus principais protagonistas, alçou-se ao principal cargo da República, surfando como nunca na história nas redes sociais e levando para o virtual o enfrentamento, com todas as características que lhe são inerentes.
A família Bolsonaro não é e nunca foi outsider da política como quiseram fazer crer! De uma carreira militar abortada à sequência de vários mandatos legislativos envolvendo pai e filhos, temos sim, uma família que se locupletou na calada da noite tornando-se a voz dos que almejavam alternativa à esquerda no poder desde 2002. Nunca primou pela institucionalidade e uma vez dentro fez de tudo para minar as bases do Estado de Direito e da própria democracia.
O Brasil teve a oportunidade de conhecer de perto a sanha dessa família e os desastres institucionais que protagonizaram, culminando num golpe de estado (fracassado). Em 2022 a verdadeira direita brasileira, aquela que legitimamente brota dos sentimentos genuínos de um povo pacífico e democrático, teve a oportunidade de refazer o seu direcionamento com nomes que tinha disponíveis e quiçá alcançar sucesso eleitoral no último domingo. Mas não foi isso que aconteceu, por uma simples razão: a família Bolsonaro não tinha e não tem nenhum projeto de nação e sim projeto familiar de poder! Com isso, sufocou a priori qualquer alternativa no campo da direita. Houve um convencimento perverso de que somente um Bolsonaro derrotaria Lula. E os líderes da direita democrática embalaram nesse trem fantasma.
O Brasil é muito mais do que isso. A nossa democracia já demonstrou que apesar de jovem, é forte. Com a devolução dessa família ao lugar de onde nunca deveria ter saído, podemos alternar forças democráticas no comando deste país, reiniciando uma convivência profícua entre todos quadrantes doutrinários e ideológicos e pacificar a nação. Podemos, inclusive, dar um grande exemplo ao mundo civilizado. A esquerda que agora vai governar deve imediatamente aproveitar a lição que veio das ruas. Equilíbrio fiscal sem perder o rumo social que sempre a caracterizou é possível. Demonstrar apreço pela soberania nacional, que vá além de arroubos eleitorais. Fomentar equilíbrio entre os poderes e iniciar uma urgente reforma do judiciário. Ninguém pode negar as conquistas em direitos sociais nestes mais de vinte anos. Mas é imprescindível reconhecer que o país e o mundo mudaram e que a CLT talvez não tenha mais a importância que teve em tempos idos.
O dia 25 de outubro de 2026 não é de derrota nem de vitória para metade dos brasileiros. O sol que brilhou no dia seguinte às eleições é a melhor metáfora do que se espera para um futuro diferente. O país esgaçado e tenso que vinha desde 2018 não conseguiria sobreviver por muitos anos. A pacificação não vem do ideário utópico da convergência ideológica de todos os brasileiros! Mas vem sim do respeito incondicional pela divergência do semelhante e pelas instituições democráticas.
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina
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