O Brasil de hoje e os outros 500 - Renan Calheiros
O Brasil de hoje e os outros 500
Renan Calheiros
O Brasil é surpreendentemente vigoroso. Ao completar seus 500 anos, vive sua maturidade democrática, tem uma sociedade pluralista, uma cultura forte e ensaia seu ingresso na modernidade, ostentando uma pesada hipoteca de exclusão.
A Constituição, levada a termo pelo PMDB, está incompleta. Direitos individuais, alguns, são respeitados, mas os direitos sociais estão em um porto distante de muitos. Temos um estado menor, mas os benefícios prometidos ainda não chegaram à população.
O desemprego é um dos mais altos do Planeta, o subemprego elevado e os salários estão corroídos. A distribuição de renda é vergonhosa e doenças primitivas, como febre amarela, ainda matam. Os servidores públicos estão desestimulados e a máquina pública contaminada pela corrupção e nepotismo.
Na segurança pública somos os campeões de homicídios, índices elevados de mortes no trânsito e impunidade enxovalhante, além de hospedeiros complacentes do crime. A justiça é lenta, o Código Penal enrugado, o sistema penitenciário falido, as polícias com equipamentos sucateados e salários indignos e não temos fontes fixas de financiamento da segurança.
Na economia desenvolvemos uma nociva dependência do capital externo, remunerando o dinheiro, não o trabalho. Nossas dívidas cresceram, aumentou o déficit público, duplicou a remessa de lucros para fora, os juros permanecem altos e desnacionalizamos nossa economia em desfavor do mercado interno. Neste campo ressuscitamos o panorama colonial com alta dependência de novas cortes.
Em nossa pequena babel de leis, em torno de 17 mil, várias estão anacrônicas ou não pegaram. Além das reformas em curso, é inegável a necessidade de uma reforma política. Temos partidos fracos. As oligarquias políticas se perpetuam como tempo das capitanias.
Mas nada é tão grave quanto a situação da infância. A taxa de mortalidade foi reduzida, mas a desnutrição é grande. O trabalho infantil, criminoso, vitima 5,7 milhões de crianças, 1,3 milhão de crianças estão fora da sala de aula e 21 milhões de crianças vivem em famílias com renda menor do que meio mínimo, acarretando a prostituição infantil. Por isso o real precisa marcar um encontro com o social. Condenando nossas crianças, não teremos certeza de novas comemorações.
- RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL e ex-ministro da Justiça





