O Brasil confirmou ontem que quer mudança já. E o fez de uma forma madura, com os votos da maioria dos seus 115,2 milhões de eleitores. Qualquer análise desapaixonada dos resultados do segundo turno neste 27 de outubro mostra que não foi só a democracia a grande vitoriosa do processo eleitoral. Ganhou em dobro a população brasileira, primeiro por ter, propriamente, consolidado este processo democrático, e segundo por vencer durante o percurso até as urnas, ontem, uma trajetória penosa, face à tentativa de alguns grupos econômicos e políticos onde se incluem, em ambas as categorias, os especuladores de minar as chances da manifestação popular dar um basta à situação de escalabro da política e da economia nacional nos últimos anos.
O Brasil venceu um modelo governamental precário e injusto para a maioria da população. O Brasil das quebradeiras de empresas e do aumento do desemprego pode, finalmente, estar com os dias contados. O Brasil do privilegiamento a segmentos restritos da economia tende, por força da democracia, a ser sepultado em breve. O Brasil que equivocadamente ou propositalmente determinou vencimento de títulos da dívida pública às vésperas das eleições, permitindo a disparada do dólar, agora pode ficar para a história, como um capítulo ruim. O Brasil da taxa básica de juros de 21% ao ano, também definida na boca da urna, deverá ser no futuro apenas um exemplo do que a incapacidade administrativa é capaz.
Os preços majorados dos produtos de primeira necessidade, quase que diariamente nos mostruários dos supermercados, são os sintomas mais evidentes dos efeitos nocivos desse modelo em vigor. O desemprego batendo as portas de um grande número de famílias ao longo dos últimos oito anos de governo é, no entanto, o mais duro golpe deste que recebeu, por duas gestões, a missão de oferecer um Brasil mais justo para os brasileiros. O que lhes devolveram, entretanto, foi a recessão, enganosamente envolvida na embalagem de uma inflação baixa e controlada, cujo índice oficial jamais, nesse período, esteve compatível com a realidade do cidadão nas suas compras mensais de produtos básicos e indispensáveis. Porque ele, o cidadão, teve que incorporar ao seu orçamento o efeito bola de neve de todos os aumentos autorizados pelo governo. Energia elétrica, água, telefone e combustível, por exemplo, além da ferocidade no avanço de alíquotas, ou reajustes porcentuais de itens da carga tributária, levaram gradativamente os preços finais de gêneros de primeira necessidade a um patamar assustador, como se confere hoje no comércio.
O Brasil, enfim, pediu maduramente por mudança e confirmou ontem essa necessidade do novo. As urnas dão vitória a Luiz Inácio Lula da Silva, que representa essa mudança. Desde ontem, embora a posse do presidente eleito seja no ano que vem, cabe a este que recebeu a missão de promover esta mudança estar atento às necessidades imediatas não somente dos 115,2 milhões de eleitores. Mas de toda a Nação, que depositou nele confiança e o elegeu o coordenador de um País diferente. Mais justo, menos entregue aos especuladores, com soluções para inúmeros problemas que tiram o sono da população.

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