O bom companheiro (José Antonio Pedriali)
José Antonio PedrialiO bom
companheiro
O presidente Fernando Henrique recebe hoje o presidente eleito do Paraguai, Raul Cubas Grau, que inicia pelo Brasil uma viagem de aproximação com os governos do Mercosul. O encontro foi pedido por Cubas Grau, eleito no dia 10 deste mês, pelo Partido Colorado. Ao visitar primeiro o Brasil, o futuro presidente paraguaio dá uma demonstração de reconhecimento da importância do Brasil no cenário político e econômico latino-americano e, especificamente, no Mercosul.
A eleição de Cubas Grau foi bem aceita pelo governo brasileiro, que o vê, segundo nosso embaixador em Assunção, Bernardo Pericás, como uma pessoa bastante simpática ao Brasil. Cubas Grau se formou em engenharia elétrica na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, fala português com fluência e, acrescenta Pericás, revela-se preparado para o cargo e com profundos conhecimentos de um tema bastante delicado para os dois países: a Hidrelétrica de Itaipu, para a qual o presidente eleito trabalhou. Cubas Grau também desempenhou cargos-chefe na Ande, estatal de energia paraguaia.
A agenda do encontro é aberta, mas um dos temas que deverá ser abordado pelo futuro presidente paraguaio é a situação de Ciudad del Leste, que vem enfrentando uma séria crise em consequência da diminuição dos negócios efetuados por brasileiros nessa cidade fronteiriça. A reativação do comércio dessa cidade - a segunda em importância no Paraguai - é uma das preocupações de Cubas Grau, com a qual, informa nosso embaixador, o Brasil compartilha.
O presidente eleito quer encontrar uma fórmula para a retomada do desenvolvimento de Ciudad del Leste e poderá propor o apoio brasileiro para a atração de indústrias leves, diversificando e, assim, dando novo impulso à economia dessa cidade, hoje quase que exclusivamente dedicada ao comércio. A segurança na fronteira, que inclui a repressão ao contrabando, à falsificação de produtos industrializados e ao tráfico de drogas, também deverá, na opinião de Bernardo Pericás, constar do encontro de Raul Cubas com FHC.
A importância do bom relacionamento dos dois países pode ser medida pelo nível comercial mantido entre o Brasil e o Paraguai, hoje o segundo maior importador de produtos brasileiros em toda a América Latina. O Brasil exportou o ano passado U$ 1,5 bilhão para o Paraguai, sobretudo em produtos industrializados, e importou R$ 400 milhões. As exportações paraguaias se resumem a produtos primários. O Brasil, além de ser o maior fornecedor do Paraguai, é também principal mercado para seus produtos, consumindo cerca de 40% das exportações daquele país.
Cubas Grau, que se inicia na política já no mais alto degrau da carreira, pois nunca disputara antes qualquer cargo público, se elegeu graças à promessa de libertar o general de reserva Lino Oviedo, condenado a 10 anos de prisão por um tribunal militar. A promessa de libertação do general, cujas incursões na política causaram certo mal-estar nos sócios do Paraguai no Mercosul, não preocupa o governo brasileiro. Segundo Bernardo Pericás, a libertação de Oviedo, prometida por Cubas Grau, deverá ser feita estritamente de acordo com a lei. A possibilidade de o general recuperar a liberdade através de um indulto presidencial está afastada, acredita Pericás, e sua volta à vida pública não deverá afetar a normalidade política paraguaia. O Paraguai continuará, assim, sendo um bom companheiro do Brasil
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é coordenador de Política da Folha
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