A tônica da política nacional, semana passada, foi a crise do escândalo que não houve. Tudo por conta da divulgação, através da imprensa, de notícias sobre a gravação clandestina de conversas telefônicas e documentos - que não são documentos - a respeito de uma suposta empresa instalada, com conta bancária, em paraíso fiscal estrangeiro, ambos os casos envolvendo a alta cúpula do governo federal.
Senhores, está dando pra manga esse pano! Já rendeu uma semana de manchetes, reportagens, entrevistas, comentários sisudos e opiniões delirantes. Eu diria que o assunto ‘‘salvou’’ a semana financeira das empresas que trabalham com notícias. As suposições estão prendendo a atenção dos leitores, radiouvintes e telespectadores. Isso aumenta o nível de consumo. As pessoas compram mais jornais, ouvem mais rádio e assistem mais televisão. Principalmente porque essas empresas se utilizam da metodologia telenovelesca: vão passando as informações em pequenas doses, sempre fechando, no subtexto, com ‘‘cenas dos próximos capítulos’’, num crescendo vivace ma non troppo. E do núcleo do suposto fato, vão ampliando a área de abrangência, envolvendo mais e mais pessoas, que poderiam estar direta ou indiretamente ligadas ao problema. Nem que dali a pouco sejam meras conjecturas que estão fundamentando as chamadas de primeira página.
Não demorou muito e os parlamentares de oposição começaram a ocupar a tribuna com jornais debaixo do braço, discursando em cima de hipóteses, blá-blá-blás, disse-que-disse. E, ora, ora, já começaram a forçar a barra pedindo a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), para investigar a boataria. Lembra desse filme, leitor? Desde outubro de 1988, quando foi promulgada a nossa Constituição da República, quantas vezes o Congresso se travestiu de delegacia de polícia? Podem até argumentar que teve algum êxito, algumas vezes; porém, a que preço?! Votações importantíssimas para o País acabaram sendo tumultuadas pelas bravatas e barulheiras de deputados e senadores detetivescos! Isso desde a revisão constitucional de 93. Sempre que as mudanças constitucionais mais graves, decisivas e indispensáveis ao Brasil eram postas na ordem do dia congressual, a oposição, minoritária, conseguia o trunfo de aliar vaidades e interesses, e, com a condescendência da imprensa, simplesmente bloqueava o processo legislativo.
Vamos lá, recapitulando: no caso do ‘‘grampo’’, o Ministério das Comunicações, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a própria Presidência da República, foram vítimas do crime de violação de sigilo telefônico. Mas acontece que as gravações foram feitas na época dos leilões do Sistema Telebrás, então a imprensa especula a possibilidade de flagrar corrupção por ali. Ora, mesmo que o conteúdo dessas fitas tivesse alguma coisa podre (até agora, parece que não continham nada de mais), seria imprestável como prova judicial. Por força de lei, a Justiça brasileira não aceita prova obtida ilicitamente. Todavia, para a imprensa ávida de mercado não importam essas filigranas técnicas, importa é o estrépito.
O caso da suposta empresa com a suposta conta bancária, nas Ilhas Cayman, é pior. O que a imprensa divulgou foi uma cópia de um documento. Aliás, é uma cópia feita por via fax - daquele que o destinatário, ou o interessado, tem de sair correndo xerocar a cópia, porque cópia de fax desaparece com o tempo. Então os documentos não são nem documentos, na acepção jurídica do termo. Não têm autenticidade alguma. Qualquer pessoa poderia ser envolvida nessa estória. No entanto, a imprensa ávida de mercado não se sente comprometida em checar fontes, as suposições bastam. No fundo, no fundo, tudo é uma questão de entonação, de literatura. Títulos e artigos são escritos com flagrantes segundas e terceiras interpretações. Havendo suspeitas, é o suficiente. Foi assim que derrubaram Fernando Collor. Falaram, falaram, falaram, até que as hipóteses mancharam-lhe o decoro presidencial. Provas não havia - tanto que, depois, o Supremo Tribunal Federal acabou absolvendo o ex-presidente. (No caso da suposta empresa e da suposta conta bancária, a imprensa continua colocando Collor junto com Maluf no balaio dos pivôs do boato. Collor tem dado declarações negando participação).
Fernando Henrique Cardoso passou o caso para a Polícia Federal e para o Ministério Público. Agora a imprensa ávida de mercado especula as razões da demora dessa decisão. A oposição teima com CPI. O Planeta Terra gira em torno do seu próprio eixo imaginário.

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