O bloco das esquerdas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 1997
Rubem Azevedo Lima 
A criação do chamado bloco das esquerdas no Congresso Nacional, integrado por cerca de 15% apenas da representação legislativa, não tem, portanto, como neutralizar, numericamente, o rolo compressor que o governo formou no Senado e na Câmara, ao fazer o milagre da transformação de ex-adversários em aliados incondicionais, a qualquer preço. E que preços!
Há dias, a Folha de S. Paulo publicou trecho de uma gravação em que se revelava como o ministro Bresser Pereira havia conseguido um dos votos a favor da tese da reelegibilidade do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Pensava-se que isso tinha acabado, mas se viu que a fisiologia, apesar das juras de modernização do País, continua e, provavelmente, deverá estar a serviço das aspirações reeleitorais do governo em 1998. O exemplo recente da reação popular, havida na Iugoslávia, contra o ilícito das manipulações do voto, não preocupa ninguém no governo. A reorganizaçáo do bloco das esquerdas parece também não assustar os governistas, tão convencidos estão eles de que o mundo, hoje, é uma grande saturnal política da direita, na qual, se não se diverte, o povo - pelo menos no Brasil - ainda alimenta a esperança de beneficiar-se com as sobras dessa festa.
Os criadores do bloco não têm pretensões absurdas. Querem, por enquanto, ocupar espaços no Congresso, não como a banda de música - por eles julgada reacionária - da antiga UDN, mas com discursos consistentes e progressistas, na visão do bloco, sobre problemas sociais, econômicos e políticos do País.
Enfim, eles se propõem, primeiro, a restabelecer o debate parlamentar, com seriedade, forçando, em consequência, os líderes da maioria a lhes dar respostas, nas duas casas do Congresso. Recentemente, diante de duros ataques feitos no Senado, sobre a privatização da Vale do Rio Doce, os porta-vozes do governo ficaram em completo e envergonhado silêncio, portando-se não como homens públicos solidários com o executivo, mas como autômatos cumpridores de uma política suicida a que dão apenas o voto.
Certamente a estratégia do bloco, apesar do gelo de grande parte da mídia em relação às oposições, acabará por tornar obrigatória a resposta dos líderes do presidente FHC, muitos dos quais lutaram para obter tais cargos, mas sem preparo para os encargos deles decorrentes.
A conquista de espaço parlamentar depende, porém, de reajustes no regimento interno da Câmara, que comporta a existência do posto de líder da maioria na Casa, mas não o da minoria. Esse cargo terá, pois, de ser criado, para que seu ocupante possa falar, ali, pelos brasileiros que divergem do governo. Se tal reforma for impedida - o que é improvável - isso poderá ser o primeiro desafio das oposições. Aprovada, no entanto, será o desafio dos governistas, chamados a um embate em que a quantidade vale menos do que a qualidade e a fisiologia nada, ou quase nada, frente às idéias e suas verdades.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.


