A pergunta que todos fazem neste momento é a seguinte: e agora, como é que ficam as coisas? Uma pergunta simples para respostas não tão fáceis. É claro que cada um de nós tem a sua explicação. Afinal, assim como entendemos e somos palpiteiros na escalação e na maneira de jogar do nosso time, também arriscamos comentários sobre o recente terremoto que sacudiu os alicerces da economia brasileira.
Para quem gosta de jogar conversa fora e ao mesmo tempo mostrar para os amigos que conhece os meandros da teoria e da política econômica, este é um prato cheio. Os palpites são os mais variados, assim como variam também os jogadores do time. Da divergência de opiniões, só há espaço para uma convergência: a saída do Gustavo Franco foi aplaudida de pé pela galera. Assim como Zagallo foi crucificado pela covardia do time em sair para o ataque, o ex-presidente do Banco Central mostrou-se um retranqueiro de primeiro nível. O azar dele é que a estratégia de jogo não deu certo. Assim como Zagallo não contava com o futebol apresentado por Zidane, Gustavo não esperava primeiro a quebradeira do México e depois da Rússia. O esquema de jogo traçado pelos tecnocratas do governo baseava-se no miudinho das desvalorizações cambiais ao longo do ano e ao mesmo tempo torcendo para que os exportadores ganhassem eficiência dentro de suas empresas eliminando gorduras e também suas margens de lucro. E tudo isso sem precisar do empurrão do governo através da redução mais abrangente da sobrevalorização do real. Enquanto isso, torciam de pés juntos para que os parlamentares se convencessem da necessidade das reformas.
Porém, mesmo os amadores sabem que a equação técnica nem sempre empata com a equação política. Enquanto os doutores do BC rabiscavam a receita econômica, os políticos não estavam nem aí, até porque a grande maioria pouco entende de macroeconomia e só faz ouvidos para os seus próprios interesses, ou seja para a sua microeconomia particular. E o técnico? O nosso presidente só acordou quando a iminência da desclassificação era evidente. Aconselhado por credores de fora, puxou o tapete do Gustavo e foi atrás do Chico Lopes, aquele mesmo do Plano Cruzado. Ironias do destino.
E agora, José? Todo e qualquer cidadão bem informado neste país sabe que este não é o momento para grandes lances. O negócio é ficar corujando, esperando a tormenta passar e a poeira se acomodar. Claro que temos que ficar de olho nos acontecimentos, e quem sabe até arriscar pequenas decisões de varejo. As de atacado por enquanto deixa para lá. Alguns certamente ganharão e outros certamente perderão. Mas isso também não é novidade. A grande questão é a seguinte: para que direção jogo a proa do meu barco e qual a velocidade que devo imprimir em situação de ventos soprando contra ondas ameaçadoras?
Todos estão neste momento reavaliando a sua posição na turbulência. Assim como os investidores, importadores e exportadores fazem suas contas, o pessoal da agropecuária faz o mesmo. Por anos vigorou a idéia de que o boi gordo era ativo financeiro indexado ao dólar. A estabilidade econômica dos últimos anos eliminou este conceito mas não fez o pecuarista se esquecer de que o seu plantel era cotado em dólar. E da noite para o dia o patrimônio do produtor diminuiu em torno de 26%, o tamanho da mordida provocada pela desvalorização. Claro que esta suposta diminuição de patrimônio é meramente psicológica e não real. Afinal, a reposição do plantel é feita em reais e o animal terminado vendido aos frigoríficos continua sendo na moeda nacional. Ademais, 95% do abate nacional se destina aos consumidores internos. Pelo que se sabe, o abate clandestino não paga em dólares. Aliás, não se sabe se paga. O Fisco com certeza nunca viu a cor deste dinheiro.
Descartados os acontecimentos imprevisíveis, ou seja, supondo que os fatos rolem redondinho e sem surpresas de última hora, as exportações do setor avícola deverão aumentar de forma significativa a médio prazo. Sob o ponto de vista dos entraves internos, afora a concorrência desleal de alguns outros países produtores, este era um dos mais importantes. Falta a definição da questão dos juros e da reforma tributária, mas a turma competente da avicultura saberá deitar e rolar nos mercados externos. Isto abre uma brecha para a elevação dos preços internos, pela simples razão da menor disponibilidade do produto ofertado internamente.
Como o boi e o frango têm um coeficiente de elasticidade-cruzada muito alto, (traduzindo: os dois vivem se vigiando pela dependência que cada um tem em relação ao outro em termos de mercado consumidor), a pecuária de corte vai no vácuo aproveitando a brecha da elevação dos preços. É claro que contra toda esta primitiva euforia resta imponente a figura do consumidor, fragilizado e sofrido por anos de castigo imposto por Brasília.
A desvalorização do câmbio poderá até gerar alguns pontos percentuais a mais na inflação, mas com certeza neste momento, face todas as circunstâncias de debilidade apresentada pelo consumidor, não deverá haver expansão do consumo, até porque o provável índice inflacionário que se seguirá não será acompanhado pela correção automática dos salários. E se isto acontecer cai a renda real, embora os salários nominais se mantenham constantes. Tradução: mais pauladas na cabeça do assalariado, diminuindo o seu poder de compra.
Aos frigoríficos organizados cabe procurar nichos especializados do mercado, seja pela diferenciação de produtos, através da desossa e de geração de maior valor agregado, conjugando com uma boa dose de marketing e propaganda. A formação de parcerias com o produtor é um desafio para o futuro, que tenderá a minimizar as desconfianças recíprocas e sedimentar um nível de relacionamento que possibilite enfrentar juntos as mazelas da atividade.
Enfim, a sorte nem sempre é casuística. Quase sempre ela pende para os determinados e aqueles que, mesmo na tempestade e aflição, sabem manter a calma, fazer a leitura correta dos equipamentos de bordo e navegar na direção correta. E, principalmente, saber se desvencilhar dos Itamares da vida.

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