O berro bem articulado
O berro bem articulado
Walmor Maccarini
Desde os tempos de Omar Mazzei Guimarães, então presidente, não se ouvia no seio da Sociedade Rural do Paraná um brado de despertar, como agora. Ele parte da Chapa Desperta Rural, que neste sábado concorre com a chapa situacionista à eleição da nova diretoria da entidade. Depois de meio século de existência, tendo começado com um pequeno aglomerado de agropecuaristas, nunca uma disputa foi tão acirrada como esta, na SRP. No mais das vezes formaram-se chapas únicas, seguindo um rito de consensual revezamento de lideranças. Nada contra. Mas é salutar ouvir agora o candidato Francisco Galli - que se intitula não oposição mas uma nova opção - proclamar que se faz necessária uma maior participação política da classe agropecuária.
Londrina já teve grande expressão no ativismo político ruralista, não só com Omar na SRP mas sobretudo com Álvaro Godoy capitaneando a Associação Paranaense dos Cafeicultores; com Celso Garcia Cid e tantos outros líderes da região. Tempos heróicos. Os menos jovens se lembram da célebre Marcha da Produção, liderada pelo barbudo Godoy e que só não chegou a Brasília porque o Governo Federal marchou horas antes na contramão da caravana. Para impedi-la, obviamente, porém manifestava aí o reconhecimento do poder de mobilização da classe ruralista. Na continuação, muitas das reivindicações acabaram atendidas. Quando soavam fortes as vozes da produção, em defesa das causas da cafeicultura - naqueles anos o grande sustentáculo da economia paranaense e por extensão nacional - o Governo atendia, perturbado pelo ruído e vencido pelo cansaço. A Folha de Londrina caminhava junto.
Agora estão aí, a nos desafiarem, problemas cruciais como o da reforma agrária, trazendo em sua esteira a anarquia implantada pelo Movimento dos Sem-Terra; a eterna ausência de uma política agrícola que contemple aqueles já com terra; a necessidade urgente de criar uma legislação trabalhista adequada ao meio rural; as políticas de preços e de crédito agrícola - este sempre escasso, estressado pela burocracia, chegando às vezes fora de época. Para não falar dos impostos com que o homem do campo é punido, pelo delito de produzir alimentos.
Já tarda que a Sociedade Rural do Paraná comece a dar (ou retome) seus murros-na-mesa e seus berros. Trata-se de uma entidade poderosa, idônea, não obstante um tanto acomodada. Um poder tão grande não pode ser desperdiçado e não pode se dispersar. Promover a exposição anual, responsável por excelentes negócios, muito giro de dinheiro e tantas conquistas tecnológicas, é um item importante no calendário da SRP, mas é fundamental uma permanente postura política. Passados estes primeiros 50 anos de existência, é chegado o tempo de um redespertar rural, parta desta ou daquela chapa, mas louve-se que o agropecuarista e agrônomo Francisco Galli tenha ousado mexer com as estruturas mais tradicionais da SRP e levantado uma nova bandeira, esta de que a Sociedade Rural deve exercer mais atuação política. No Brasil de hoje, quem tem alguma forma de poder deve usá-lo. Pesquisas tecnológicas - que a SRP tem também empreendido - são funções mais específicas de órgãos como o Instituto Agronômico do Paraná, a Embrapa e outros, plantados aqui mesmo em território londrinense. Sem prejuízo delas e sem negligenciar suas atribuições de atender aos associados, a Sociedade Rural do Paraná tem que assumir um papel político e batalhar pelas causas da esquecida agricultura. Se entidades como a SRP não se lembrarem dela, quem se lembrará?! O Governo ignora a gente da roça. E não consegue administrar questões como esta da reforma agrária, que por nunca feita ou por mal feita, está gerando essa guerrilha que ameaça assumir contornos cada vez mais perigosos. Já impera uma subversão da ordem, com abalos na segurança nacional.
Que a Sociedade Rural comece o Movimento dos Com Terra, o MCT, não para se contrapor ao MST mas para buscar soluções de amparo e proteção àqueles que já têm terra, que são da terra e que sabem fazê-la produzir. E, entre os sem terra, recuperar os legítimos, porque eles existem, sim, e devem ser devolvidos ao campo, na forma de donos ou empregados. E, neste último caso, adequando a CLT, ou ninguém empregará ninguém.
Londrina sempre foi uma cidade rebelde, não a rebeldia intransigente, turrona, mas esta de saber articular bem o berro e fazê-lo penetrar nos ouvidos da comunidade governamental. Não fosse essa rebeldia, tantas conquistas obtidas por Londrina não teriam passado de sonho de noite de cabaré. E essas conquistas sempre se estribaram no berro bem articulado, porque esta é a linguagem que os governantes respeitam.
Está na hora de fazerem-se ouvir, de novo, esses berros oriundos dos campos do Paraná, para que os ouçam as lideranças adormecidas, os sindicatos rurais, as cooperativas, a bancada ruralista no Congresso Nacional, a imprensa. Se a agricultura não mostra as garras e os dentes, Brasília pensa que tudo vai bem com a caipirada que planta e cria, e que não há ninguém de barriga vazia.
Que frutifiquem as fábricas, mas que não se perca de vista o homem da roça. Já alertou o estadista que o campo sobreviverá sem as cidades, mas estas perecerão sem ele.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina





