Certa ocasião o ministro Mário Henrique Simonsen, ao falar dos 8 milhões de brasileiros que tinham vínculo de remuneração com o Estado, afirmou que se fossem eliminados das funções 50% deles, as repartições públicas funcionariam melhor, querendo dizer que metade só atrapalhava. Ontem os jornais publicaram estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostrando que os ganhos dos altos escalões do funcionalismo público no Brasil estão entre os mais elevados do mundo, superando Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, Argentina e tantos outros, só perdendo para o México nessa olímpica vantagem. Não são propriamente os salários que são altos, mas os benefícios adicionais embutidos e que entram dessa maneira para que o povo não perceba declara Nelson Marconi, professor de Desenvolvimento Econômico da Fundação Getúlio Vargas e um dos autores do estudo. São enormes as denominadas ajudas de custo, as tantas formas de mordomia e as poucas horas de trabalho em relação com outros trabalhadores, para não falar daqueles que só comparecem para assinar o ponto e receber os vencimentos no fim do mês, e das aposentadorias milionárias. Oito milhões de pessoas valendo-se do dinheiro público isto incluindo os cargos eletivos significam um contingente quase do tamanho da população do Paraná, e a ser verdadeira a afirmação do ex-ministro, metade, além de subtrair preciosa soma de dinheiro do contribuinte, por acréscimo estorva. Houve tempos em que ser funcionário público conferia certo status, até pelos altos ganhos e porque as profissões de nível universitário não eram numerosas. Criou-se aí, certamente, uma tradição de suposta superioridade do funcionalismo burocrata e a presunção de autoridade sobre os cidadãos, com direito até de humilhá-los o que em certo grau acontece até hoje nas repartições públicas. O que é oficial ainda cheira a carimbagem e a dificultação das coisas, quando deveria ser o contrário, a facilitação, parecendo imperar aí um prazer mórbido de prejudicar as pessoas ao invés de auxiliá-las, principalmente as mais humildes e sem força para reagir. Existe no Brasil uma acentuada rejeição dos cidadãos aos funcionários públicos, porque ressalvados os que atuam nas áreas da saúde, da educação e da segurança a própria classe criou a imagem do servidor burocrata, com má vontade e irreverência no atendimento às pessoas. A informação agora publicada não constitui novidade com relação ao privilegiado ganho do funcionalismo de alto escalão, como também sabem os cidadãos do quanto ganham mal e tanto trabalham, no geral, os professores, os servidores básicos da saúde e os policiais, justamente os mais necessários e indispensáveis. São as distorções deste Brasil injusto em tanta coisa, a demonstrar quanto ainda falta por reformar no âmbito da legislação e do saneamento da máquina governamental gastadora e pouco eficiente. Haverá de chegar o momento em que um presidente da República dotado de grande espírito público e destemor, e um corpo parlamentar com idênticos atributos, resolvam elaborar e executar revolucionários projetos de mudanças e conduzam este país à plenitude da ordem constitucional e ao absoluto exercício da justiça.

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