O bem, o mal e o outro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de abril de 1997
José Nêumanne 
Quais são as semelhanças existentes entre as biografias do soldado da PM paulista Wagner Pereira de Oliveira e o editor americano Larry Flint? Esta pergunta é fácil de ser respondida, pois o PM, conhecido como Mancha, é um homem muito religioso, a ponto de ser um baixista aplicado no conjunto que toca na igreja matriz de São Vicente, no litoral sul de São Paulo. O editor também teve sua fase religiosa, após sua conversão por uma líder religiosa, Ruth, irmã do ex-presidente Jimmy Carter.
Qual pode ser a maior diferença entre o citado Larry Flynt, cuja vida deu um filme de sucesso, dirigido pelo mesmo Milos Forman, de Hair e Amadeus, e um colega de farda do Mancha, o soldado PM Otávio Lourenço Gambra, vulgo Rambo? Esta questão também é muito fácil de ter uma solução. Pois o pobre Rambo paulistano, além de frequentar com assiduidade uma igreja batista, sempre foi tido e havido como um homem de bem, tão dedicado à família que uma das poucas falhas registradas em seu currículo militar foi a de ter chegado atrasado ao quartel num dia em que havia ido deixar a filhinha na escola. Já o milionário dono da revista pornográfica Hustler pode ser apontado como o inimigo número um da decência, da moral e dos bons costumes da civilização cristã ocidental.
A julgar pela comparação de suas biografias, no dia em que tombarem, vítimas de balas de algum malfeitor nos combates que travam diariamente para defender a sociedade, os bravos soldados da PM têm caminho assegurado para o paraíso. Lá usarão suas espadas a serviço das hostes comandadas pelo arcanjo Gabriel, a serviço do Bem. Larry Flint, não. Este, que já escapou da morte, ao ser baleado por um desconhecido, tem lugar garantido nas tropas do Mal, sob o comando de Satã. Pois o pornógrafo profissional representa tudo o que é condenável e politicamente incorreto: exploração mercantil das formas anatômicas femininas e do conúbio sexual, lenocínio e outros crimes vis.
No entanto, ao mesmo tempo em que o canalha americano é exaltado por uma inegável boa ação, graças à história de sua vida narrada em filme que concorreu ao Oscar, os bonzinhos Rambo e Mancha são atirados no inferno virtual da mídia por crimes que são pagos para evitar e combater. Tal condenação, aliás, tem sido justa, muito justa, justíssima.
A história narrada no filme O povo contra Larry Flint é realmente, exemplar. O rufião, que ficou milionário vendendo sexo colorido e impresso, protagonizou uma luta política histórica, que culminou num julgamento da Suprema Corte dos Estados Unidos, consagrando como inviolável (os juristas brasilerios chamariam de pétreo) o direito à liberdade de expressão. Se eu, que sou o pior de vocês, tenho o direito de me expressar, a vitória é de todos, disse o editor de Hustler, à saída do Tribunal, após ter derrotado um representante da família, da tradição e dos bons costumes, um desses pastores cheios de lorota e de dinheiro. A frase é um resumo maravilhoso de como funcionam as instituições.
Da mesma forma, as vidas duplas de Mancha e Rambo são denúncias terríveis da falta de instituições sólidas e impessoais em nosso País. Descritas por Valdir Sanches, no Jornal da Tarde, de São Paulo, e por Kiko Nogueira, na revista Veja, elas chegam a ser emblemáticas, para usar uma palavrinha besta da moda. Com roupa civil e sem coturnos, Rambo trabalhava como segurança para um açougue e o açougueiro não se lembra de algum dia ter ele pedido sequer um contrapeso de carne como propina. Mas, fardado e armado, se comportava como um assaltante comum na Favela Naval, em Diadema, tomando dinheiro e jóias dos pobres transeuntes de suas vielas, quando sozinho, e chegando ao cúmulo de atirar num desconhecido, matando-o, quando apoiado pelo grupo.
O que o protegia, aliás, não foram apenas as sombras da noite e o grupo de delinquentes que o acompanhavam nas sessões de tortura e achaque na favela. As vidas duplas desses soldados só são possíveis por culpa da leniência dos comandantes e da impunidade gozada, ambas garantidas pelo espírito de corpo. Há um importante aspecto humano nesses bons pais de família, que se tornam bandidos cruéis quando travestidos de agentes da lei. Mas o mais importante é o institucional: condenadas pelas normas legais, suas vidas duplas são abençoadas pelos códigos sociais.
Faço esta comparação entre duas condições opostas para chegar a uma conclusão que me parece óbvia. O que leva o homem ao Bem não são (ou, pelo menos, não são somente) uma boa formação familiar, escolar e religiosa nem mesmo seus bons instintos naturais. O caminho do Bem pode até ser árduo e pedregoso, como ensina o Evangelho, mas é, sobretudo, um caminho institucional. Se entendermos o Bem como um convívio harmonioso com o Outro, tal via precisa ser acompanhada, e até fiscalizada, por agentes impessoais do Outro invisível, mas existente e respeitável, ou seja, as instituições que forçam as boas ações, punindo a prática do Mal.


