Paulo Sérgio Pereira da Silva
Faz agora vinte e cinco anos. Tive a oportunidade de estar numa reunião com o bem-aventurado Josemaría Escrivá, quando da sua visita à cidade de São Paulo. Impressionaram-me vivamente as suas palavras de ânimo, de exigência e - por que não dizê-lo - de extremo realismo e bom senso quando falava aos muitos pais e mães que lá estávamos.
Pude perceber que muitas respostas e comentários que, naquele momento, fazia ao vivo, eram fruto de uma reflexão e meditação profunda, serena e constante - que ficou recolhida por escrito em vários livros de homilias e pontos de reflexão.
Para nós, pais e mães, que queríamos saber de que maneira poderíamos ajudar melhor na educação e formação de nossos filhos, diante de uma sociedade que ia se tornando cada vez mais agressiva e, de certa forma, contrária ao que gostaríamos de ensinar-lhes, o fundador da Opus Dei nos explicava que ‘‘os pais educam fundamentalmente com a sua conduta. O que os filhos e as filhas procuram no pai e na mãe não são apenas uns conhecimentos mais amplos que os seus, ou uns conselhos mais ou menos acertados, mas algo de maior categoria: um testemunho do valor e do sentido da vida encarnado numa existência concreta, confirmado nas diversas circunstâncias e situações que se sucedem ao longo dos anos’’ (‘‘É Cristo que passa’’, n. 28).
Não deixava de ser um desafio: mostrar um estilo de vida coerente e constante ao longo dos anos para que aprendam a dar um sentido às suas vidas. E um desafio, que pouco a pouco - talvez muito a muito - foi-se tornando cada vez mais necessário ao perceber como a juventude atual passava a ser - basta dar uma olhada nas manchetes dos jornais - uma juventude, de certa forma, sem rumo, sem esperança, sem, em definitivo, um sentido claro para as suas vidas. Uma juventude sem modelos e que, mesmo sem dizê-lo em voz alta, está à procura desse modelo concreto, ‘‘encarnado’’ quotidianamente no pai e na mãe.
Não escapava ao fundador da Opus Dei que essa tarefa não estava isenta de dificuldades. É por isso que repetia tão insistentemente que a missão do casal consistia, principalmente, em transformar ‘‘toda a vida matrimonial em um caminhar divino sobre a terra’’ (Idem, n. 23). Frase que poderia ser ou soar estranha se não fosse o extremado realismo e bom senso com que o bem-aventurado Josemaría costumava matizar essas palavras, advertindo que o importante na família era ‘‘compartilhar as alegrias e os possíveis dissabores; saber sorrir, esquecendo as preocupações pessoais para atender os demais; escutar o outro cônjuge ou os filhos, mostrando-lhes que são queridos e compreendidos de verdade; não dar importância a pequenos atritos que o egoísmo poderia converter em montanhas; depositar um grande amor nos pequenos serviços que se compõe a convivência diária’’ (Ibidem).
Ontem, 26 de junho, foi comemorado mais um aniversário do falecimento do fundador da Opus Dei, e cada vez me convenço mais de que a família é, de fato, o grande remédio para a crise que a sociedade está atravessando. Que pais e filhos aprendam e vejam, no âmbito familiar, o que significa viver as virtudes básicas que fundamentam e fortalecem o tecido social: a solidariedade, a generosidade, a simpatia, e estima... e, logicamente, as rusgas e dificuldades - como o próprio bem-aventurado Josemaría ressaltava - que são também, dentro da família, um excepcional aprendizado para a vida em sociedade.
Não me parece exagero afirmar que a família é, de certa maneira, um autêntico laboratório de humanidade, que pode ser - como afirmava o bem-aventurado Josemaría - ‘‘um remanso de serenidade em que, por cima das pequenas contrariedades diárias, se pudesse notar uma afeição profunda e sincera, uma tranquilidade profunda, fruto de uma fé real e vivida’’. (idem, n. 22).
- PAULO SÉRGIO PEREIRA DA SILVA é professor universitário em Londrina

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