O básico bem-feito
Qual é o grande desejo dos políticos carreiristas? Andar no corpo do eleitor, feito tatuagem, grudar-se na mente do cidadão, feito uma marcha carnavalesca do Braguinha, e habitar o coração do povo, feito o escrete canarinho. Tudo é válido, desde que as pessoas lembrem do dito cujo, principalmente na hora de votar. Pode-se até falar mal, mas que se fale. Vale implantar cabelos, fazer cirurgia plástica no nariz, ao redor dos olhos, nas pregas da boca. Valem slogans, valem logomarcas. Vale o punhado de publicitários a tiracolo, cada um dizendo uma coisa: como falar, o que falar, quando falar, o que vestir, o que gesticular... (grande filão para a publicidade & propaganda, a política.)
Daqui a menos de seis meses, seremos chamados a votar para prefeito em nossas cidades. Hora de avaliação, de julgamento por conta da possibilidade de reeleição , do malfeito e do bem-feito.
Obviamente, nada será como antes na próxima vez. O nível de exigência do eleitorado tem subido muito. O político que faz está sendo questionado a respeito do que fez e de como fez. Isso significa que, atualmente, nem toda a sofisticação publicitária, com sua tecnologia de ponta, é capaz de, por si só, garantir uma eleição. As ações políticas precisam, além de ser corretas, vir com certificado de honestidade.
Agora, é curioso observar tanta correria dos políticos, notadamente dos que ora estão gerenciando o poder municipal, atrás de índices de popularidade, de aceitação. Para eles, atrair, seduzir, conquistar a preferência do eleitorado é mais técnica do que ciência, é mais ciência do que arte. A construção desses índices de popularidade é possível, mesmo a partir, inclusive, do nada. Mas custa caro. Daí os políticos, gerentes da hora, investirem horrores em estratégias e táticas de sedução eleitoreira. Um dinheiro que poderia ser gasto para conquistas efetivas e não superficiais.
Pena que poucos saibam (ou parecem não saber) que o coração do povo é simples de conquistar. Existem uns elementos básicos presentes no cotidiano de todas as pessoas, que, de tão básicos, tornaram-se triviais. E só reassumem seu posto de nobreza, de delicadeza, em casos de urgência. É como a água encanada. Todo mundo abre a torneira com uma certeza absoluta de que sairá água dali. E quando sai, ninguém nota é mais um dado corriqueiro no processo de cozinhar ou lavar. Agora, o tamanho da importância desse singelo gesto aparece quando você abre a torneira e não acontece nada. A reação, normalmente, é de uma frustração indignada e furiosa. Perguntará para onde vai o dinheiro público, se nem água na torneira aparece. E servir água por cano não era algo tão simples?
Senhores prefeitos, senhores candidatos. Pouca coisa pode ser tão básica quanto a saúde da gente. Porque doença causa dor, e dor é uma sensação tal que ninguém quer sentir duas vezes (aliás, certamente está aí um dos grandes motores da civilização, a luta contra a dor). Portanto, quando o cidadão adoece, ele procura um posto médico, com a mesma certeza de quando abre uma torneira. Quer ver sair água, quer ser atendido. Mas se ele chegar ao posto e precisar ficar esperando por 3 ou 4 horas pelo atendimento, aquela sua certeza ficará abalada. Pior será quando, depois de atendido, o tratamento prescrito necessitar de algum exame (de sangue, de raio X etc.) e o cidadão tiver de marcar data para fazer esse exame, e verificar que a espera poderá durar semanas. O mesmo se diga se o caso for de internamento hospitalar e o cidadão se sentir tratado como traste, como bobo, tendo de percorrer um verdadeiro calvário até cruzar a linha de chegada e garantir o direito de ocupar um leito de enfermaria. E quando a crise é urgente urgentíssima, e não há vaga na UTI? E quando a crise é psiquiátrica, e for impossível manter o paciente em casa e não houver hospital que o acolha? Senhor prefeito...
Excelente sacada foi essa da propaganda, quem diria, do Ministério da Saúde, sobre o atendimento médico domiciliar. Aquela senhora, dizendo mais ou menos assim: A pessoa que trata bem da gente, a gente tem amor por essa pessoa. É isso aí. O administrador que faz, honestamente, o básico bem-feito, conquista para sempre, não só para o próximo pleito.
JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





