O Banco do Brasil e a crise - Graciela Paula Ferroni
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de março de 1999
Graciela Paula Ferroni 
A crise do Plano Real, marcada pela desvalorização da moeda a partir de meados de janeiro, revelou as fragilidades do modelo de estabilização adotado pelo governo: sobrevalorização do câmbio e política de juros altos. A valorização do câmbio estimulou a entrada de produtos importados, aumentando a concorrência interna para deter a inflação. A consequência foi um pesado déficit na balança comercial. Por outro lado, a política de juros altos atraiu capitais externos para cobrir déficits e aumentar as reservas internacionais do País, de forma a sustentar a opção da política econômica.
Os resultados foram um recorde no desemprego, arrocho salarial e, sobretudo, um salto espetacular no endividamento interno e externo. O Plano Real ficou engessado no endividamento e na dependência do capital estrangeiro externos.
As reservas internacionais se esvaziaram rapidamente, obrigando o governo a buscar um socorro de US$ 50 bilhões junto ao FMI.
Neste cenário, surge pela imprensa a defesa de medidas extremas de ajuste fiscal, incluindo a privatização do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica Federal (CEF).
Desde 1991, as privatizações no âmbito federal geraram recursos da ordem de US$ 68 bilhões. Não obstante, ocorreu uma piora no déficit público e a dívida interna aumentou quase seis vezes, somente no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique. Liquidaram-se parcelas significativas do patrimônio público sem solucionar o que se propunha.
Em momentos de crise como este, é importante inverter a lógica do processo. A questão prioritária não é a estabilidade monetária obtida a qualquer custo, mas um novo plano de desenvolvimento do País. A prioridade deve ser o crescimento econômico com geração de empregos e distribuição da renda. Instrumentos de política de crédito como o BB e a CEF são imprescindíveis.
O BB, uma instituição com 190 anos de existência, dando prioridade ao setor exportador e à agricultura. O banco mantém investimentos no exterior para servir de funding à posição de credor de parcela significativa da dívida externa brasileira. Está presente em todo o País, enquanto os bancos privados não têm interesse em atuar nesses municípios devido à baixa rentabilidade das operações, especialmente no Norte e Nordeste do País.
Como instrumento de governo, o BB atuou no ápice da crise cambial vendendo dólares, no caminho oposto ao dos concorrentes privados, que especulavam contra nossa moeda.
Em 1998, o BB destinou R$ 11,6 bilhões a financiamentos rurais e agroindustriais, o que corresponde a 49% das suas operações de crédito, respondendo por 80% dos empréstimos ao setor primário no Brasil. Os recursos vêm da caderneta de poupança. Nas operações do comércio exterior, a instituição é líder no mercado, com 20% de participação. Na situação atual, em que o País precisa melhorar com urgência sua balança comercial, sem dúvida o BB é instituição estratégica na concessão de crédito ao setor exportador.
Assim como no passado, as saídas da crise encontram no BB um instrumento imprescindível. No nosso entendimento, a missão do banco deve ser o desenvolvimento econômico e social do País através da intermediação financeira, via crédito ou financiamento, e a prestação de serviços. A instituição deve atuar como banco de fomento, agente financeiro do Tesouro Nacional e banco comercial.
Como banco de fomento, deve fazer chegar crédito e prestar serviços aos segmentos produtivos, às regiões menos favorecidas e às áreas ou setores de grande interesse social, de modo a estimular o desenvolvimento econômico e social do Brasil.
Na atuação como banco comercial, deve buscar executar sua missão de forma eficiente e com retorno financeiro que garanta aos seus acionistas o ganho possível dentro dos limites legais.
Sem dúvida, o BB tem muito a contribuir com o País, sendo indispensável a sua presença para o povo brasileiro.
GRACIELA PAULA FERRONI é presidente da Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (Anabb).


