O balão de Roseana
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2001
Gaudêncio Torquato 
Observadores, analistas, formadores de opinião e eleitores mais atentos estão divididos em torno do chamado fator Roseana. Há quem a considere um balão muito inflado que, no devido tempo, vai murchar. Alguns acreditam que o balão vai perder um pouco de ar, mas não a ponto de cair. E outros apostam não apenas na subida do balão, mas na capacidade de vencer a corrida de obstáculos no céu do segundo turno. Quem tem razão? Ser incisivo em matéria eleitoral, principalmente quando se trata de decisão a ser tomada só nos dias 6 e 27 de outubro de 2002, é querer enxergar no meio da escuridão. Diante do horizonte aberto por Roseana Sarney, o que se pode tentar é desenhar os contornos que balizarão o processo decisório.
Em primeiro lugar, há de se atentar para a questão do gênero. A mulher está em ascensão na grade de motivação e interesses do eleitor. Os homens estão no epicentro da crise de credibilidade que corrói a imagem dos atores políticos. As denúncias e os escândalos envolvendo agentes masculinos acabam conferindo papel de destaque à mulher-política, que, nesse caso, funciona como contraponto à mesmice dos homens. Identifica-se na mulher qualificação melhor para administração e controle do orçamento doméstico, transferindo-se essa condição para a política. O eleitor estaria raciocinando assim: ''Quero uma pessoa que possa cuidar melhor do dinheiro do povo, o meu dinheiro''.
A ausência de fortes programas na área social também funciona como elemento que privilegia a mulher. O governo de Fernando Henrique tem uma cara profundamente técnica, monetarista, moldada pela faca afiada de Pedro Malan, Everardo Maciel e Armínio Fraga. Ora, o eleitor quer se deitar num colchão social, arrumado sobre os pilares de uma assistência mais densa, o que significa mais hospitais, remédios, segurança, escolas, alimentos. Por que não dar oportunidade a uma mulher? Esse argumento se insere nas linhas de pensamento dos eleitores.
Roseana Sarney, portanto, tem boas possibilidades de subir. O maior obstáculo de Roseana é ela mesma. O mesmo que ocorre com Lula. Se comprovar que tem discurso denso, apropriado, objetivo, claro, e, sobretudo, focado para as grandes demandas do clima ambiental, criará raízes na cabeça dos eleitores, deixando a sala emotiva do coração. Pelo coração, uma pessoa acalenta a vontade de votar num perfil; pela cabeça, toma a decisão. O coração funciona como a janela da simpatia, o ante-salão da empatia, que se traduz pela identificação e proximidade entre um eleitor carente e um candidato acessível e disposto a satisfazer os desejos do povo.
O que poderá ocorrer com José Serra, o mais provável candidato tucano? Desbancar Roseana não será tarefa fácil, a não ser que esta pré-candidata tropece violentamente num dos ciclos da campanha. Exemplos: caia em contradição, perca vergonhosamente um debate, provoque gafes monumentais, ou mesmo, comece a ser criticada de maneira contundente pela mídia pela ausência de um discurso substantivo. Roseana há de se preparar profundamente para apresentar propostas sérias, amplas, adequadas e consistentes para o País. Há de ter respostas ágeis e inteligentes para todas as questões que lhe forem colocadas, a partir da análise dos parcos índices de desenvolvimento social no Maranhão.
Serra poderá crescer, caso as circunstâncias ambientais campo macroeconômico, harmonia e segurança social lhe sejam favoráveis. A questão da imagem pessoal a afamada antipatia e arrogância poderá ficar em segundo plano, caso o ministro da saúde se dispuser ao jogo aberto e franco das idéias, vir ao encontro das massas, abrir as comportas para ouvir os anseios das comunidades, produzir a autocrítica dos erros do governo, entre outras atitudes.
Será pouco provável que Roseana e Serra cheguem a exibir, cada um, índices acima dos 20 pontos na intenção de voto. Um candidato governista entrará seguramente no segundo turno, contra um candidato oposicionista. Da mesma forma, é improvável que dois candidatos oposicionistas alcancem o segundo turno, principalmente quando já se sabe que 2002 não será o ano trágico que foi pintado e que as ameaças apagão, crise da Argentina levando de roldão o Brasil, fuga em massa de capitais internacionais não se concretizarão.
Dentro desse cenário, Roseana e Serra têm boas possibilidades de passar para a fase final do vestibular presidencial. Aquela, ganhando confiança do eleitorado com um conteúdo que ultrapasse o simples marketing; esse, limpando as arestas e descendo o altar de Deus, em que procura reinar. Há um limbo, um espaço de purgação de pecados, no qual eles e Lula deverão entrar para preparar suas almas ao encontro do reino dos Céus, melhor dizendo, ao encontro da cadeira do Palácio do Planalto.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e consultor político


