O astuto maquiavel - Hélio Duque
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de março de 1998
Hélio Duque 
É mais seguro ser temido que amado, quando se tenha de falhar numa das duas, ensina Nicolló Machiavelli, num livrinho escrito há 500 anos, muito citado, mas pouco lido: O Príncipe.
Maquiavel está longe do amoralismo cínico com que é tratado em sociedades como a brasileira. Ao contrário, erudito e sofisticado, foi titular na secretaria da Chancelaria de Florença, onde desempenhou importantes missões diplomáticas. O seu livro é uma fundamental leitura para os estudiosos da Política. Assim mesmo com P maiúsculo. Um dos seus analistas mais acurados chega a afirmar: Não é só a mais famosa obra da literatura política de todos os tempos, como também a mais discutida e a que é tida, aliás, sem razão, no mais baixo conceito, por parte dos críticos hipócritas, impediosos e invejosos. há duas posições em relação a Maquiavel, a dos que o atacam e a dos que o elogiam. Nunca, porém, existe quem o ignore.
A renascença italiana foi um tempo de turbulências onde tiranetes travestidos em ducados, baronatos, principados, governavam com mão de ferro. Uma Itália fragmentada e estiolada, cobiçada e ocupada por franceses, espanhóis, austríacos que se aliavam a uma nobreza submissa, foi nesse cenário que Maquiavel viveu. Na República de Florença, na condição de chanceler passa a nutrir admiração pela maneira habilidosa e impiedosa como César Bórgia exercia o poder. Com a restauração, anos depois, dos Médicis, o extraordinário florentino recolhe-se à vida privada, num verdadeiro auto-exílio.
É ai que dedicando-se obsessivamente aos estudos e pesquisas históricas vai imortalizar-se. O Príncipe, texto sintético e eficaz, sua fundamental obra oficializada em 1513, seguem-se Discursos sobre a primeira década de Tito Livio, de 1513/1519; A Arte de Guerra, 1519; e a peça teatral A Mandrágora, em 1520.
O Príncipe precisa ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para aterrorizar os lobos. A astúcia de Maquiavel conserva atualidade, sobretudo para os governantes, aconselhando-os: O Príncipe não precisa possuir todas as qualidades que demonstra ter, bastando que aparente possuí-las ou é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso contrariá-la.
Verdadeiro tratado do comportamento humano. O Principe, Além de leitura fundamental e saborosa, mantém uma contemporaneidade assombrosa. A palavra é do genial florentino:
1 - Quem se torna príncipe mediante o apoio do povo, deve manter o povo como amigo. Lição atualíssima.
2 - Um príncipe é estimado quando é verdadeiro amigo e verdadeiro inimigo. Tomar partido ao invés da neutralidade.
3 - Um erro do qual os príncipes se defendem com dificuldade: os aduladores. As côrtes estão repletas desse tipo.
4 - A sorte se deixa vencer mais pelos audaciosos que pelos prudentes. A audácia, sempre.
5 - Existem três tipos de mentes: uma, que entende por si mesma, outra capaz de discernir o que outros entendem e a terceira não entende nem a si, nem a outros; a primeira é ótima, a segunda, excelente, a terceira inútil. Nada a acrescentar.
Pensador vigoroso, com extraordinária visão do poder, a doutrina maquiavélica não é como se imagina, sinônimo de esperteza e de falta de caráter. Ao contrário, delimita com maestria e sofisticação como o Príncipe (governante) deve exercer o poder do Estado. Com autoridade e inquebrantável vontade. Maquiavelismo, na verdade, significa saber exercer com eficácia, competência e coragem o poder na busca do bem comum. O fundamento maior da ação política, nas sociedades onde impera a consciência da cidadania. Ainda chegaremos lá.


