O assassinato do Timor
Rubem Azevedo Lima
Sempre que não lhes permitirem mais nada, as pessoas devem gritar. ‘‘Há ocasiões em que o silêncio é crime contra a humanidade’’. São palavras de Nadejda, a viúva do poeta Osip Mandelstam, morto em campo de concentração da URSS, durante os expurgos stalinistas. Ela falava do silêncio habitual, que se faz diante da violência e da opressão dos poderosos contra os fracos, como ocorreu no assassinato do marido e dos dissidentes eliminados na mesma ocasião.
Ouvimos, há dias, o grito dos excluídos, promovido pela Igreja, a fim de abrir a consciência autocrítica do governo à miséria de milhões de brasileiros. Esse clamor, embora abafado, veio do coração do País e não há como ignorá-lo. Ainda bem.
Mas que dizer do vergonhoso silêncio que se faz ante a tragédia anunciada do povo do Timor Leste? Os americanos, que têm espiões e instrutores militares em Jacarta, sabiam de tudo, mas silenciaram quando os líderes do movimento pela libertação do Timor, Xanana Gusmão, o bispo Belo e Ramos-Horta, pediram o adiamento do referendo sobre a independência da ex-colônia portuguesa, dado o perigo de represálias contra a previsível vitória dessa tese.
Milícias apoiadas pelo Exército indonésio atacaram a população timorense, durante quase três meses, na tentativa de fazê-la votar contra a independência. Apesar disso, os independentistas tiveram mais de 80% da votação. Sem as violências das milícias, teriam muito mais votos.
Aconteceu, então, o previsto pelos líderes do movimento da independência: o banho de sangue pós-eleitoral, porque a ONU e os Estados Unidos não prepararam qualquer esquema de resistência contra a ação criminosa das milícias.
O silêncio do governo Clinton, diante desse genocídio, reflete a lógica da geopolítica das grandes potências. Os EUA agiram, em nome do sentimento humanitário, no Chifre da África, para ‘‘salvar’’ da fome o povo da Somália. Intervieram no Iraque, em nome da democracia humanitarista, contra a ditadura de Saddam Hussein. Bombardearam a Iugoslávia, para impedir a perseguição aos muçulmanos albaneses em Kosovo. Nessas estratégias, o humanitarismo foi mero eufemismo para os interesses americanos.
Agora, no caso do Timor, os EUA estão com a Indonésia, cuja ditadura desumana eliminou, em trinta anos, milhões de comunistas e mais de um terço da população timorense. A ministra Madeleine Albright, pregadora da paz americana, em vários pontos do planeta, ignora o Timor e até pensa em tirar Kofi Annan da secretaria-geral da ONU, por sua insistência em salvar a ex-colônia portuguesa.
Os EUA criaram o problema Timor. Há 25 anos, o então presidente Ford e seu secretário de Estado, Kissinger, armaram a ditadura indonésia e apoiaram a ocupação da ex-colônia, que se declarara independente de Portugal. De olho nas riquezas indonésias, ambos fingiram temer que os comunistas timorenses tornassem realidade o filme ‘‘O rato que ruge’’ e ameaçassem a segurança dos EUA.
Agora, é a covardia da ditadura armada contra a frágil liberdade sem armas. Resta a todos gritarem juntos, para denunciarem esse crime contra a humanidade e somarem seus gritos aos do povo assassinado no Timor.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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