Na bonita tarde de quarta-feira passada, no centro de Londrina, as pessoas iam e vinham como de costume entretidas em afazeres e trabalhos, quando seus olhares, incluindo o meu, se detiveram sobre um curioso desfile: eram os sem-terra, protagonizando uma das suas atividades favoritas, ou seja, essa espécie de turismo político que lhes traz inúmeras vantagens, entre as quais recolher a simpatia da sociedade. Não estavam aglomerados, evitando assim demonstrar seu pouco número, mas alinhados em duas filas paralelas como numa procissão de bem comportados romeiros. À frente do cortejo em vez do andor ia um carro de som, de onde saía o discurso calmo e compassado, no qual sobressaia a pregação visando esclarecer a todos os passantes que os sem-terra apenas querem terra para poder trabalhar.
Estava impressionada com a organização do desfile no tocante à sua estudada capacidade de persuasão esbanjada nos mínimos detalhes, quando ouvi uma exclamação feita pelo balconista que me estendia a mercadoria que eu estava comprando: ‘‘Cambada de vagabundos! Deviam estar trabalhando na terra que tanto pedem, e que estão dando para eles, mas querem mesmo é moleza, ficar passeando com tudo pago, porque de terra não entendem nada.’’
Olhei o rapaz para reparar melhor na sua indignação. Era alguém fazendo seu trabalho, procurando ganhar a vida sem favores, privilégios, rebeliões e, muito menos, sem querer angariar para si nem pena nem solidariedade social. Era um brasileiro como tantos outros na sua busca de sobrevivência. Uma pessoa simples e com dignidade.
Peguei a mercadoria e lancei um olhar ao redor. Vi no rosto de muitos um ar de reprovação, que por ser muda não era menos evidente que aquela externada em alto e bom som. Concluí, então, que a simpatia que a imprensa insiste em afirmar que há por parte da sociedade brasileira para com os sem-terra se existe é muito limitada. Ao mesmo tempo, raciocinei sobre os equívocos dos políticos que pensam que agradando aos sem-terra, fechando os olhos aos abusos que o movimento vem cometendo, encontrarão nesta aparente maioria de deserdados o respaldo das urnas nas futuras eleições.
Se houve de início certa simpatia da sociedade pelo MST (o que nunca foi comprovado, mas apenas afirmado pelos meios de comunicação), esse sentimento está se esvaindo na medida em que os brasileiros estão se tornando mais perceptivos. Desse modo, o artificialismo do movimento começa a vir à tona, enquanto os desmandos dele provenientes se acumulam. Acrescente-se que esses desmandos permanecem impunes, como se os sem-terra fossem cidadãos acima de qualquer suspeita, o que revolta outros cidadãos para os quais a Justiça costuma ser cumprida às vezes de forma rigorosa.
Na truculência e no artificialismo do MST residem, pois, a fraqueza do movimento que se apresenta como imbatível e monolítico, e que se alastra pelo país multiplicando sem-terra que brotam de todos os lados das cidades, e que são aliciados pelos que se dizem líderes. E não é difícil obter-se essa arregimentação. Afinal, é pregado pelas lideranças que o Brasil se divide em duas classes sociais: os fazendeiros e os sem-terra.
Recentemente o Incra constatou o que o jovem balconista resmungou revoltado: a maioria dos recrutados pelo MST não tem nenhuma ligação com a terra. Isso apareceu através do cadastramento das famílias que invadiram a Fazenda Santo Antônio, em Itaquiraí, no Mato Grosso do Sul. Ali o Incra verificou que das 2.160 famílias acampadas, 1.108 não possuem perfil agrícola, não reunindo, portanto, as condições mínimas para participar do programa de reforma agrária. Isso evidencia a crendice forjada pelo MST de que os invasores que esbulham proprietários de terras produtivas, destroem matas nativas, matam gado e animais silvestres e gastam o dinheiro do governo em atividades bem diversas das agrícolas, são pobres camponeses explorados pela cruel sociedade capitalista, que só almejam um pedaço de chão para sobreviver com suas famílias.
Entretanto, na medida em que continuar existindo a permissividade governamental para com o MST, os sem-terra se multiplicarão ao infinito. Afinal, deve ser ótimo ganhar um pedaço de terra que pode ser vendida a bom preço, financiamento para se gastar no que quiser, cestas básicas e outras comodidades, tudo com o dinheiro do contribuinte, que começa a assistir à farsa de cara amarrada.
Sobre o assunto lembre-se aqui que, em 1995, quando era ministro da Agricultura o senador Andrade Vieira, o presidente do Incra Francisco Graziano promoveu um recenseamento das famílias de sem-terra acampadas nas beiras das estradas, e chegou ao número de 20 mil. Em dois meses foram assentadas 18 mil delas. Seis meses depois, como um passe de mágica, os dois mil restantes se multiplicaram e seu número subiu para 30 mil. Afinal, qualquer um pode ser sem-terra, inclusive o balconista e eu, pois o que interessa ao MST não é a reforma agrária, mas a implantação tardia no Brasil de um socialismo que fracassou no mundo inteiro.

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