O aprendizado e o exercício da Ética
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de maio de 2003
Francisca Vergínio Soares 
Vive-se um momento de escassez. Escassez de tudo: dinheiro, saúde, alimento, educação, habitação, trabalho e principalmente ética. Há um debate nacional da recuperação das populações humanas famintas, doentes, ignorantes, marginalizadas econômica e socialmente. Mas isso não será possível sem uma tentativa séria, profunda e abrangente do renascimento da ética. Não parece possível recuperar os aspectos ambientais destruídos sem um plano ético que permeie a relação homem/natureza.
Urge que novos contratos sejam reformulados: primeiro o dos homens entre si e dos homens com a natureza. Pôr em prática ambos implica, a priori, acordar a consciência humana sobre os valores fundamentais de uma civilização que seja mais solidária e menos egoísta. Só por meio da ética pode-se recuperar o respeito por nós mesmos, por nossos iguais e desiguais e o respeito pela natureza.
A ética não vem registrada no DNA de nossos cromossomos. E o que não se herda tem que ser adquirido. Adquirido pela educação, pelo aprendizado, afinal nos distinguimos dos animais exatamente porque somos seres ''racionais'', temos a capacidade de pensar no mal que podemos causar ao outro. Ora, uma sociedade que treina para matar, para amar, para produzir os infinitos desejos de consumo tem o dever de descobrir formas de treinar a prática da ética. Caso contrário, aceleraremos o estado de guerra de todos contra todos de que nos falava Thomas Hobbes no Leviatã, fantástico livro escrito em 1651.
Estabelecer uma norma, uma regra do compromisso ético é tarefa de todos. Os inúmeros segmentos sociais como os sindicatos, os órgãos de classe, as associações diversas, as ONGs, as entidades estudantis como a UNE e os diretórios acadêmicos, as forças progressivas da igreja, os partidos políticos, os governos federal, municipal e estadual têm que voltar seus olhares ao cotidiano e dele tirar a partir de debates uma proposta que integre o País de norte a sul no que diz respeito ao estabelecimento da ética.
Pode-se começar com a mãe já conversando com seu filho desde a barriga, nos berços dos bebês, estendendo às creches, aos jardins de infância. O tema da ética seguiria pelas escolas do 1º, 2º e 3º graus, as universidades ainda são espaços onde se pode explorar de diversos modos essa temática tão em desuso.
Enfim, alguém escreveu: ''Talvez devêssemos instituir todos nós o anjo da ética. Um anjo especial que a toda manhã nos olhasse de nosso criado-mudo e nos dissesse com suavidade: tenho em mim a essência da ética e através dela posso sair para a vida onde respeitarei e serei respeitado''.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais pela PUC/São Paulo e docente na Universidade Estadual de Londrina e na Uninorte


