O apocalipse brasileiro - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de março de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Li na Veja de 18 deste uma matéria que me chamou atenção pelo título: Quanto pior... E pelo subtítulo: O que faz as pessoas acharem que tudo vai dar errado, mesmo que as coisas estejam melhorando. O texto faz comentários sobre livros que tratam do pessimismo, e mostra como certas catástrofes previstas, desde a profecia de Malthus, segundo a qual a humanidade morreria de fome, até a guerra nuclear total que exterminaria da terra todo ser vivente, acabaram não acontecendo.
A última e importante desgraça referiu-se a um meteoro gigante, que se precipitaria sobre nossas indefesas cabeças no fatídico ano 2028, o que também não sucederá. As televisões até nos lembraram do desaparecimento dos dinossauros em tempos remotos, causado por uma dessas pedras descomunais. Aliás, não consigo explicar esta obsessão por dinossauros, peculiar aos norte-americanos mas agora por nós copiada, o que inclui escavações e descobertas ligadas ao tema.
Mas se a humanidade sempre se lamuriou e choramingou, afirma Aaron Cohl no seu livro Como o Pessimismo, a Paranóia e uma Imprensa Descontrolada estão nos Levando ao Desastre, que a imprensa e não as corporações, os médicos ou os governos, é a principal fonte de informação do cidadão comum sobre economia, saúde e política. Daí ele conclui que: Parece vago colocar a culpa na imprensa, mas boa parte do pessimismo reinante é gotejado em nossas veias pacientemente pelos jornais, pelas revistas e pela televisão.
Concordo inteiramente com Aaron Cohl. Em livro e artigos já fiz comentários sobre o assunto referindo-me especialmente à televisão, e mostrando que esse meio de comunicação, por seu impacto, possui hoje maior força de controle social do que a escola, a religião e até mesmo a família. Num país como o nosso em que se lê pouco, inclusive jornais e revistas, é a TV que praticamente monopoliza as atenções. Ela é companhia, lazer e informação para o comum das pessoas, palanque eletrônico para políticos, gigantesco estande de venda para comerciantes e empresários, substituta de babá para crianças, que ao invés de contos de fadas agora dormem embaladas por programas eróticos, filmes de violência e noticiários catastróficos. Se, como se costuma dizer, as crianças de hoje serão o Brasil de amanhã, teremos um crescente público amante de programas trash tipo Ratinho Livre, e de gosto musical condicionado pelo Tchan.
Mas a televisão, como já afirmei inúmeras vezes, é espelho mágico que reflete desejos, sonhos, valores, comportamentos e símbolos da sociedade, e os devolve em forma de fantasia. Ora, se a humanidade cultiva a tragédia, adora a catástrofe, ama a mentira e cultua o apocalipse, por que a imprensa, especialmente a televisão, não haveria de dar corda nessa essência tão humana, existente em nível planetário?
Sim, a babaquice é global, e não apenas nossa. Lógico que horríveis tragédias acontecem vez por outra. Catástrofes naturais como terremotos, maremotos, tufões, erupções vulcânicas ocorrem, como sempre ocorreram desde que mundo é mundo, atemorizando populações inteiras e fazendo inúmeras vítimas. E além dessas forças titânicas da natureza, que por sinal não se manifestam no Brasil, o próprio homem se encarrega de castigar, aterrorizar, infernizar seu semelhante com guerras, guerrilhas, perseguições, torturas, difamações, chantagens, intrigas.
Entretanto, é preciso reconhecer que, em se tratando de conforto e bem-estar, foi dado um salto considerável pela humanidade. É só apertar certos botões e colocamos em movimento da máquina de lavar ao microondas, do computador à televisão. Com um simples toque iluminamos tudo ao nosso redor e temos o mundo ao nosso alcance. Tememos morrer, é verdade, e tememos erros médicos, mas já possuimos anestesia, assepsia, exames sofisticados, vacinas, antibióticos e cirurgias impensáveis pouco anos atrás. Por outro lado, se a justiça dos homens é falha, há na atualidade um certo avanço do que se chama Estado de direito. De modo geral não se procede como nos tempos da Inquisição, quando a simples delação bastava para levar alguém, sem nenhum direito de defesa, para a masmorra e para a fogueira do auto de fé. Além disso, na aldeia global meios de comunicação e de transporte vencem instantaneamente ou velozmente distâncias, alterando conceitos de tempo e espaço. Nunca o conhecimento esteve tão disponível para todos. É só cair na rede e navegar. Enquanto isso, o homem ronda com suas sondas o sistema solar, e prepara o salto para outras galáxias.
No Brasil, o povo come melhor, consome mais, viaja mais. Diminuem o analfabetismo e a taxa de mortalidade, subiu a expectativa de vida e as metrópoles estão desinchando. Mas a par disso, diariamente no Jornal Hoje da Globo, Mônica e Ana Paula fazem revezamento de queixumes e críticas sobre a situação brasileira. E não há de tardar a volta da campanha do cólera, epidemia que nunca aconteceu. Para todos os efeitos, ainda temos 32 milhões de miseráveis. Fazer o quê? É o velho e querido apocalipse em curso.


