Imagine uma partida de futebol, interrompida pelo juiz porque ele pressentiu uma derrota iminente do seu time de coração, que começou mal o jogo e tomou um gol logo de saída. Não é difícil imaginar, nestes tempos de achincalhe do esporte preferido do brasileiro. Pois é, algo parecido aconteceu na votação da reforma administrativa na Câmara dos Deputados.
O time do bloco de oposição, formado pelos deputados do PT, PDT e PC do B, considerado pelo governo um adversário pequeno, mas de muita garra e união, conseguiu aprovar em votação no plenário da Câmara, no dia 7 de maio, seu primeiro destaque à proposta de emenda constitucional da reforma administrativa. A proposta de emenda foi feita pelo time da situação - um time forte, cheio de estrelas, porém desarticulado e suspeito de só jogar bem quando estimulado por polpudos bichos.
Diante do resultado, o juiz, o presidente da Câmara Michel Temer (PMDB/SP), torcedor notório do time da situação, comprometido com os cartolas do governo, não teve dúvidas: encerrou a peleja. Ou melhor, mandou a decisão da partida para o tapetão. No caso, para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
O que o time da oposição deveria fazer diante desse absurdo? Calar-se? Deixar o povo brasileiro assistir a mais uma manobra imoral no jogo da reforma administrativa, sem que fosse tomada nenhuma atitude? Não. A oposição, time aguerrido que é, partiu para o ataque, tomou o apito do juiz, e promoveu uma manifestação extrema, porém necessária: o apitaço.
O barulho dos apitos, como vimos, teve o mérito de evitar a mudança das regras no meio do jogo. O juiz Michel Temer e o time da situação recuaram e, em reunião com os líderes dos partidos, aceitaram disputar o jogo como ele deve ser disputado: no voto, com transparência e democracia.
É preciso não esquecer que a manobra do governo foi apenas mais um entre os tristes lances que têm marcado as disputas em torno da chamada reforma administrativa do aparelho do Estado, como quer o ministro Luiz Carlos Bresser Pereira. Antes do apitaço, só para lembrar o mais vergonhoso desses lances, aconteceu uma verdadeira negociata, na tentativa de aprovação do extrateto para a aposentadoria dos ocupantes de cargo eletivo (presidente da República, prefeitos, deputados etc) e cargos em comissão (ministros, secretários e assessores em geral).
O dispositivo permitiria o acúmulo de mais uma aposentadoria, além do teto de 10,8 mil reais fixado para todos os outros mortais. Diante do repúdio da sociedade, a proposta do extrateto foi retirada.
Ora, não foi outro o sentimento - a náusea - que motivou o apitaço. O repúdio ao jogo desleal do time do governo demonstrou que o time da oposição não perdeu a capacidade de indignar-se, como propôs o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva a todo o povo brasileiro.
A bancada governista precisa aprender de uma vez por todas que as regras da democracia não valem apenas quando lhe interessam. Se a lição do apitaço não for aprendida, o time da situação vai colocar sob suspeita todo o campeonato das reformas constitucionais.
- NEDSON MICHELETI é deputado federal pelo PT/PR, funcionário licenciado da CEF e membro da Comissão Especial para Regulamentação do Sistema Financeiro.

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