O setor da construção civil, historicamente um dos maiores empregadores do país e motor do desenvolvimento urbano, enfrenta hoje um fenômeno que preocupa empresários, profissionais e entidades representativas: o apagão de mão de obra qualificada. Embora as tecnologias e os métodos construtivos avancem, a dificuldade em atrair e reter trabalhadores tem se tornado um obstáculo crescente, ameaçando o ritmo de obras públicas e privadas.

Diversos fatores explicam esse cenário. Um deles é a transformação nas relações de trabalho, marcada pela chamada “uberização” e pela “pejotização” das atividades. A ideia de que o profissional, ao se tornar pessoa jurídica ou autônomo, conquista liberdade e autonomia é sedutora — especialmente para as novas gerações. No entanto, essa visão, muitas vezes, mascara uma realidade de insegurança e falta de proteção social. Sem vínculos estáveis, muitos trabalhadores ficam desamparados em momentos de baixa na demanda, adoecimento ou aposentadoria. Na construção civil, essa volatilidade afeta a produtividade, o planejamento e a qualidade técnica dos empreendimentos.

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icon-aspas O apagão de mão de obra, portanto, não se explica apenas pela falta de qualificação técnica, mas por uma combinação de fatores culturais, econômicos e estruturais."

A falsa noção de que todos podem ser “empreendedores de si mesmos” também gera distorções. A independência financeira é um valor legítimo, mas nem todos os segmentos comportam essa dinâmica sem perda de qualidade ou sem impacto nas relações humanas e trabalhistas. A engenharia e a arquitetura, por exemplo, dependem de equipes coesas, de aprendizado contínuo e de responsabilidade técnica compartilhada — aspectos que se fragilizam quando o vínculo se torna meramente comercial e transitório.

Outro ponto relevante é a concorrência com o conjunto de programas sociais e benefícios oferecidos pelo governo. Essas políticas cumprem um papel importante de proteção à população vulnerável, especialmente em períodos de crise econômica. Contudo, quando combinadas a baixos salários e condições adversas de trabalho, acabam tornando o retorno ao mercado formal menos atrativo. O desafio, portanto, não é eliminar os programas sociais, mas torná-los transitórios de modo que o trabalho produtivo volte a ser percebido como o caminho mais sustentável de ascensão e dignidade.

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A mudança de mentalidade entre os jovens também influencia esse quadro. As novas gerações cresceram em um ambiente digital, onde a possibilidade de ganhar dinheiro pela internet, seja por meio de redes sociais, jogos ou plataformas de conteúdo, tornou-se uma alternativa real — e, em alguns casos, bastante lucrativa. A construção civil, com seu esforço físico, rotina em canteiros e exigência de horários rígidos, muitas vezes não compete com o apelo de uma vida mais flexível e conectada. Há, portanto, uma lacuna de percepção: o setor ainda é visto como pesado, pouco inovador e carente de propósito, quando, na verdade, é um dos que mais transformam a realidade concreta das cidades e das pessoas.


icon-aspas Reverter o apagão de mão de obra é mais do que uma necessidade setorial: é uma questão estratégica para o futuro do país."

O apagão de mão de obra, portanto, não se explica apenas pela falta de qualificação técnica, mas por uma combinação de fatores culturais, econômicos e estruturais. Superar esse desafio exige ação coordenada entre governo, empresas, sindicatos, entidades de classe e instituições de ensino. É preciso valorizar o trabalho técnico, oferecer formação continuada, modernizar as relações laborais e comunicar melhor o impacto social e econômico da construção civil.

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A engenharia e a arquitetura são pilares do desenvolvimento nacional. Reverter o apagão de mão de obra é mais do que uma necessidade setorial: é uma questão estratégica para o futuro do país. Reconhecer a dignidade do trabalho, equilibrar liberdade e proteção, e resgatar o valor de construir — no sentido mais amplo da palavra — são passos indispensáveis para recolocar o setor no caminho do crescimento sustentável e inclusivo.

Marcos Dantas é engenheiro eletricista, atual presidente do Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (CEAL).


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