O apagão da mão de obra técnica no Brasil
Muitas empresas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais capazes de executar tarefas básicas de manutenção, operação e diagnóstico técnico
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de junho de 2026
Muitas empresas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais capazes de executar tarefas básicas de manutenção, operação e diagnóstico técnico
Leonardo Guergolett 
O Brasil vive silenciosamente um problema que já impacta empresas, indústrias, hospitais, supermercados e serviços essenciais: o apagão da mão de obra técnica.
Enquanto discutimos inteligência artificial, indústria 4.0, inovação e transformação digital, muitas empresas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais capazes de executar tarefas básicas de manutenção, operação e diagnóstico técnico.
Mais do que a falta de técnicos, faltam profissionais preparados para um mercado cada vez mais competitivo, tecnológico, conectado e exigente.
Com o avanço das tecnologias, a globalização e as rápidas transformações econômicas, a forma como as pessoas trabalham mudou profundamente. Nesse novo cenário, a trabalhabilidade passou a exigir adaptação constante, aprendizado contínuo e desenvolvimento profissional permanente.
Atualmente, as organizações buscam profissionais com competências como pensamento analítico, criatividade, resiliência, flexibilidade, agilidade, motivação, alfabetização tecnológica, empatia, escuta ativa e confiabilidade.
O mercado procura cada vez mais profissionais qualificados — mas também pessoas preparadas para lidar com desafios humanos e tecnológicos.
Em um passado não tão distante, as empresas valorizavam principalmente os conhecimentos técnicos adquiridos em cursos e treinamentos, as chamadas hard skills. Hoje, além da competência técnica, as habilidades socioemocionais e comportamentais — conhecidas como soft skills — tornaram-se diferenciais indispensáveis para profissionais que desejam se manter relevantes em um mercado em constante transformação.
A dificuldade na contratação de profissionais com essas competências já se tornou realidade em diversos setores da economia. Empresas de diferentes segmentos enfrentam diariamente um problema que vai além da falta de candidatos: a escassez de profissionais realmente preparados para atuar em um ambiente cada vez mais exigente.
A nova economia trouxe equipamentos mais modernos, investimentos em tecnologia e automação de processos. Porém, muitas empresas encontram enormes dificuldades para formar equipes qualificadas e capazes de operar, diagnosticar e manter esses novos sistemas.
O problema não está apenas na quantidade de profissionais disponíveis, mas também na qualidade da formação. Em muitos casos, os candidatos possuem pouca experiência prática, dificuldade de interpretação técnica, limitações na comunicação profissional e baixa capacidade de adaptação às novas tecnologias.
Outro ponto importante é o desalinhamento entre formação e realidade do mercado. Muitos profissionais saem de cursos técnicos ou treinamentos sem vivenciar situações reais de campo, sem preparo para lidar com pressão operacional, atendimento ao cliente, softwares de gestão, relatórios técnicos e sistemas automatizados.
A transformação digital elevou significativamente o nível de exigência. O técnico moderno deixou de ser apenas um executor operacional. Hoje, ele precisa interpretar dados, utilizar aplicativos, alimentar sistemas, gerar relatórios, compreender indicadores e acompanhar a constante evolução tecnológica.
Ao mesmo tempo, muitas profissões técnicas ainda sofrem com desvalorização social. Durante anos, criou-se a ideia de que apenas carreiras universitárias tradicionais representavam sucesso profissional, enquanto o ensino técnico perdeu espaço, reconhecimento e prestígio.
O resultado é uma redução crescente no interesse dos jovens por profissões essenciais ao funcionamento da economia.
O apagão da mão de obra técnica não surgiu de forma repentina. Ele foi se formando lentamente, à medida que empresas passaram a investir em máquinas modernas, processos digitais e sistemas inteligentes, sem que houvesse profissionais preparados para sustentar essa transformação.
Diante desse cenário, investir em qualificação contínua, fortalecer o ensino técnico e aproximar empresas das instituições de formação profissional serão passos fundamentais para enfrentar um dos maiores desafios do mercado de trabalho nos próximos anos.
A tecnologia continuará avançando. A pergunta é: teremos profissionais preparados para avançar junto com ela?
Leonardo Andrea Guergolett atua nas áreas de manutenção técnica, climatização e gestão operacional
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