‘‘Este tempo, como todo tempo, é o melhor dos tempos. Se você sabe o que fazer com ele.’’ Emerson
Desde pequeno, tenho uma fascinação particular pelo número 9. Não sei se foi por causa da mágica Prova dos 9 - que nos ensinavam no primário - ou mais tarde, percebendo que, de fato, o nove comporta-se diferente da maioria dos outros números. É por isso que - embora reconhecendo o direito de todo mundo, de estar excitado à espera do ano 2000 - estou achando um barato começar este ano tão cheio de noves, e justamente depois de 1998, um ano que dava noves fora...
E - de nove em nove - veja o que acontecia nos nonos anos das décadas deste século.
Em 1909, as sufragettes americanas pleiteavam o voto com um slogan: Aos homens, seus direitos e nada mais; às mulheres, nossos direitos e nada menos. Mas o Prêmio Nobel de Literatura vai para uma mulher: a sueca Selma Lagerloff. No Brasil, o general Hermes da Fonseca vai derrotar Rui Barbosa, pela presidência.
Em 1919 - o mundo recém-saído da primeira grande guerra - outra mulher, de nome romântico, Rosa Luxemburgo, falhava em tornar a Alemanha o segundo país socialista na Europa. Criava-se a primeira Liga das Nações, que não iria vingar. E o francês Clemenceau lamentava: É tão mais fácil fazer guerra do que Paz. Rui perde, de novo, para Epitácio Pessoa e as pessoas liam sobre isso em O Cruzeiro.
1929. Ano do grande crash da Bolsa de Nova York, no dia 25 de outubro. Pela manhã o Journal havia saído com a manchete: Especialistas predizem subida das ações. Mussoluni recebe 99% dos votos dos italianos e torna-se II Duce. Primeira transmissão de televisão, na Inglaterra. Cria-se a Associação Internacional das Mulheres Pilotos, que ganha o apelido de As 99’s. Por que será?
1939. Outro ano fatídico, em que o mundo mergulha, de novo, numa guerra geral. O Brasil está vivendo sob a ditadura de Vargas. Franco vencia, na Espanha. Mas, em Hollywood, criava-se E o Vento Levou e os suíços descobriam o DDT.
Em 1949, George Orwell, lançava o seu romance profético 1984 - que, em vez de não terminar, como o 1868 do Zuenir, de fato - e felizmente não aconteceu. Simone de Beauvoir escrevia O Segundo Sexo. A China tornou-se comunista e a Índia e a Irlanda independentes. O Brasil, recém-democratizado, é governado por um militar.
1959 já é mais próximo de muitos, mas - assim mesmo - aconteceu há meio século... Vivíamos a Era de Juscelino, da revista Manchete e a euforia do primeiro Campeonato Mundial. Fidel vence a revolução, em Cuba. Amantes do teatro assistem, pela primeira vez, o Rinoceronte, de Ionesco e os cinéfilos La Dolce Vita, de Fellini.
Em 1969, Kennedy já havia morrrido há 6 anos, e Nixon assumia a presidência nos EUA. De Gaulle explodia: Política é uma coisa séria demais para ficar nas mãos dos políticos e retirava-se da vida pública. Assistia-se a O Chefão, nas telas dos cinemas. Os americanos tornavam-se os primeiros homens a pisar na Lua.
Em 1969, o xá deixava o Irã, dizendo precisar de férias, para não mais voltar. O presidente Carter comemorava, em Camp David, o ‘‘início da paz’’ entre os palestinos e israelenses. Margaret Thatcher torna-se primeira ministra. E Madre Teresa ganha o Prêmio Nobel da Paz.
1989 ainda está bem perto. Mas nem todos se lembrarão, talvez, que foi o ano em que desmoronaram as barreiras da antiga Cortina de Ferro, começando pelo Muro de Berlim e renasceram os países dominados pela URSS. Mas, na China, ainda ocorria o massacre de Tiananmen. Aqui, preparávamo-nos para as primeiras eleições livres depois da ditadura.
Anos turbulentos. Anos mágicos. Anos femininos. Anos de mudança. A sedução do quase, do percentual de 99 pontos, uma a menos do que a centena, ou o milênio. Leia de novo o conselho sábio de Emerson, lá em cima. Feliz 1999 para você. E tenha a certeza de que outro ano assim, só dentro de mil anos mais.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) no Rio de Janeiro

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