O ano das mudanças
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de dezembro de 2002
Renan Calheiros 
Todas as mudanças que se esperam para 2003 estariam acontecendo de maneira muito mais fácil e segura se já tivéssemos concluído uma delas, que deveria ter sido a primeira de todas. Eu me refiro à reforma político-partidária que foi, ao longo da legislatura que se encerra, amplamente discutida e votada, pelo menos no Senado Federal. Hoje, 18 anos depois da campanha do saudoso Tancredo Neves, que tinha o slogan de ''Muda Brasil'', muita coisa mudou no País, mas as regras que regem o jogo político e os partidos continuam praticamente as mesmas. Talvez porque a população, ainda, não tenha compreendido que a reforma política é fundamental para implementar as reais mudanças na vida dos brasileiros.
Sem a reforma política, as outras reformas igualmente necessárias custarão muito caro ao país. A tributária e a da previdência, por exemplo, tramitam no Congresso há anos e as condições para que se viabilizem, no sistema atual, são pequenas. Sem a reforma política, chega-se ao governo sabendo que não se tem o poder por completo e fica mais difícil obter as condições para a governabilidade. O futuro governo, sem dúvida alguma, estaria prestando um grande serviço ao País se pautasse a reforma política como a sua principal prioridade.
Mas este final de ano nos obriga, também, a uma boa reflexão sobre os rumos da economia para 2003, uma outra área igualmente sensível e estratégica. Nossos maiores bancos e consultorias levam em conta os parâmetros atuais para construir e trabalhar em cima de cenários para o ano seguinte, por uma simples e boa razão: o sistema financeiro vive o futuro. Ele se obriga a espetar faróis de neblina na cerração de um mercado erradio e nômade, com direito a uma transição sem precedentes na virada do ano. Contratos de bilhões podem ou devem ser fechados hoje com aposta firme no balanço do primeiro ano do novo governo. Para lastrear essa aposta por todo o sistema financeiro, aqui dentro e lá fora, amaciando a negociação com investidores, clientes, parceiros e mutuários, é preciso que os novos governantes escolham um caminho a ser seguido que, pela expressão da ampla maioria da vontade popular, deveria ser diferenciado do atual.
E, para promover esta mudança, é preciso conquistar a confiança financeira sem abrir mão do controle fiscal, pressionar os juros para baixo, restringir temporariamente a livre saída do capital brasileiro para garantir o crescimento, negociar pactos com os setores organizados da sociedade brasileira, estabelecer políticas sociais de compensação para atenuar o sofrimento dos mais pobres, promover as reformas necessárias e outras inovadoras que elevem a renda nacional e reduzam o desemprego, além de romper algumas relações incestuosas entre o poder e o dinheiro.
Se o futuro governo errar o caminho, produzirá agravamento da situação econômica e frustração das expectativas populares. A crise recrudescerá. Nosso compromisso, como mandatários, é apoiar o novo governo a construir as bases para a etapa seguinte que pode manter viva a visão de uma alternativa nacional.
RENAN CALHEIROS é líder do PMDB no Senado.


