O ano da odisséia - Rubem Azevedo Lima
O ano da odisséia
Rubem Azevedo Lima
Principal peça de exaltação do neoliberalismo e da política de livre mercado, graças à ilusão das estatísticas, os Estados Unidos estão começando a mostrar ao mundo e vão fazê-lo até novembro do ano 2000, data das eleições presidenciais no país sua verdadeira realidade econômica e social. Allan Greenspan, presidente do Federal Reserve Bank, o banco central dos EUA, já fez, desde 1998, três ou quatro advertências sobre o irrealismo da euforia dos investidores na Bolsa de Nova York.
A economia física desse país não autoriza os recordes diários de títulos ali negociados. Na verdade, tal otimismo não procede, pois o crescimento da economia física norte-americana é inferior ao da valorização dos papéis que a bolsa movimenta. Existiriam, pois, claros indícios de bolhas especulativas, que podem estourar a qualquer momento, com sérias consequências internacionais.
De mais a mais, o presidente Clinton não cumpriu os compromissos constantes de seus programas sociais, que beneficiariam mais de 30 milhões de americanos na linha de pobreza absoluta. Em função de tais promessas, por sinal, ele foi eleito e reeleito. Por acreditar na palavra do presidente, os eleitores do Partido Democrata ajudaram a elevar oito vezes o número de seus representantes negros na Câmara de Deputados (The House of Representants). Agora, além da minoria negra e chicana, as mulheres em geral que também apoiavam Clinton maciçamente estão decepcionadas menos pelos escândalos sexuais do presidente do que pelo fracasso de seu programa social.
De resto, nos sete anos de governo democrático, o valor do salário médio dos trabalhadores americanos caiu cerca de 15% em relação ao que vigorava no final do governo republicano de George Bush, cujo filho, de igual nome, concorrerá à presidência dos EUA em 2000, sob o mesmo partido paterno.
As pesquisas de opinião pública revelam que o candidato de Clinton à Presidência, o vice Al Gore, seria batido inapelavelmente pelo republicano Bush, se as eleições para presidente se realizassem hoje. E, mais: além do Executivo, os republicanos elegeriam a maioria absoluta de senadores e deputados, controlando, portanto, folgadamente, o Legislativo dos EUA.
A última etapa da previsível derrocada política de Clinton deve dar-se na Suprema Corte norte-americana. Ali, confirmadas as pesquisas eleitorais e consumadas, como se espera, as aposentadorias de ministros nomeados pelos democratas, os republicanos não terão dificuldade em substituí-los por juristas identificados com o partido, que terá, em seu poder, a tríplice coroa do governo dos EUA.
Como se viu agora em São Paulo e deve ter ocorrido nos demais Estados o enriquecimento dos ricos, nos quase cinco anos de governo Fernando Henrique Cardoso, foi muito maior do que a desejável desmiserabilização dos pobres. Esse fenômeno, típico do modelo político neoliberal, também surgiu nos Estados Unidos, o paraíso mundial da economia de mercado livre.
Lá, sabe-se hoje, é o que deve acontecer ao país, nas eleições presidenciais do ano em que Clinton esperava consagrar-se o maior presidente que os EUA já tiveram. Como estarão, porém, o Brasil e FHC, a um ano da eleição do futuro presidente do país? Será, então, o ano 2001, da Odisséia no Espaço, filme de Kubrick, no qual se mostra que modernidade, sob qualquer sistema político, significa problemas. Sob o neoliberalismo, que está em quebra, significa piores problemas, e não garantia automática de progresso econômico, social e moral, como as autoridades brasileiras crêem.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





