O aniversário do DNA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de abril de 2003
Luiz Eduardo Cheida 
Quando uma dona de casa pede ao apresentador Ratinho um teste de DNA, que confirme a paternidade do filho, os mais 5 milhões de brasileiros que assistem a TV naquele momento não precisam de maiores explicações sobre a sigla. É sinal que há no mundo de hoje pouca coisa tão popular quanto o respeitável e venerado ácido desoxirribonucléico.
Não é para menos: através dele, uma simples mancha de sangue na sola do sapato da vítima, pode conduzir ao assassino; a manipulação de uma só molécula sua, culmina em um organismo geneticamente modificado (o transgênico); a alteração de um só átomo seu modifica a cadeia de hemoglobina humana, sentenciando à morte por anemia falciforme o cidadão; seu mapeamento adequado pode evitar o adoecimento e morte por câncer como os de mama, de intestino, próstata e tantas outras fatalidades; exceto alguns poucos vírus, nenhuma outra forma de vida no planeta consegue viabilizar-se caso não o tenha em sua composição química; a característica mais importante dos seres vivos que é sua capacidade de autoduplicar-se só é possível porque ele é a única molécula na Terra com o dom de autocopiar-se...
Nada mais fascinante sob o sol. Nada mais paradoxal que as possibilidades impossíveis desta ínfima parcela da matéria, sequer visível ao microscópio, mas que contém todo o patrimônio que a vida pôde acumular nos últimos 3.8 bilhões de anos, desde que surgiu.
Pois, hoje, há exatos 50 anos, o americano James Watson e o inglês Francis Crick publicavam na revista científica Nature, o artigo que tornou a Biologia o mais interessante e ousado ramo das ciências atuais. Nele, os dois propunham um modelo da estrutura molecular do ácido desoxirribonucléico, nosso popular DNA. Diga-se, de passagem, modelo sobre uma molécula que jamais tinham visto.
Assim, boa parte do que hoje sabemos sobre a vida, o sabemos de 50 anos para cá. E, embora, o homem não tenha inventado o DNA e sim, tenha sido inventado por ele, temos muito a comemorar. Mais que isso: este aniversário acontece no momento em que a humanidade se debruça sobre diversos dilemas éticos. Neles, o DNA ocupa o centro das discussões: até onde a Ciência pode ir? até onde a Ciência deve ir?
E, para que o desfecho de dilemas como estes possa também ser, futuramente, comemorado é imprescindível que a população se familiarize com eles. Para tanto, também o Programa do Ratinho tem sua dose de valor.
LUIZ EDUARDO CHEIDA é secretário de estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, médico, autor de livros de Biologia e foi Prefeito de Londrina de 1993 a 1996


