O aniversário de uma cidade compartilhada
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de março de 1999
Cassio Taniguchi 
A história tem lá seus caprichos e surpresas dentro do evoluir contínuo. Nela, nada é estanque, nada nasce e sobrevive para sempre, tudo se faz transformação. A história corre por sobre si mesma, um rio a arrastar homens e com eles a totalidade do que é capaz de nascer em seus espíritos: cidades, técnicas, artes, ciências, maneiras empíricas de fazer a aprender.
É evidente que os índios e portugueses que resolveram ocupar as margens do Rio Atuba, ainda nos idos de março de 1693, jamais poderiam imaginar que naquele lugar se lançavam os alicerces de uma cidade que se tornaria exemplo de fazer e saber acontecer. Uma cidade que neste final de século já chega a abrigar mais de 1,6 milhão de habitantes, localizada estrategicamente no centro da região mais industrializada da América do Sul.
Sede da 5ª Comarca de São Paulo, capital desde 1842, Curitiba completa 306 anos. Com uma vocação administrativa, prestadora de serviços e comercial, a cidade começa a ter o seu perfil econômico alterado em 1973 ao ser implantada a Cidade Industrial de Curitiba, hoje gerando mais de 250 mil empregos e proporcionando cerca de 25% de todo o ICMS arrecadado pelo Estado.
Tendo como cenário o contraste do bucólico verde-cinza de seus parques no inverno e o florescer dos ipês amarelos da primavera, o curitibano constrói uma cidade voltada para o seu bem-estar, com cada habitante desenvolvendo uma relação solidária com os espaços urbanos. Aqui há uma convivência pacífica entre o que foi moderno e hoje se faz moderno. Os lambrequins das casas dos primeiros imigrantes europeus sobrevivem ao lado de grandes estruturas de concreto e aço; o artesão vende sua arte para o operário especializado que, com um simples gesto, pode desencadear a fabricação em escala dos mais sofisticados produtos na indústria eletrônica ou mecânica. Enfim, Curitiba é uma causa compartilhada em que cada habitante se faz cidadão, no sentido de cobrar direitos e exercer deveres. E assim penso que, ao se fazer a cidade uma causa compartilhada, não há segredo para sua administração.
Praticamente todas as cidades do mundo enfrentam dois problemas cruciais neste término de milênio: emprego e transporte. Por isso que um dos grandes investimentos de nossa administração é o Linhão do Emprego, a mais ampla intervenção urbana feita em Curitiba desde 1973, quando nasceu a CIC. O linhão liga 18 bairros, ao longo de 30 quilômetros, acolhendo transporte coletivo e negócios. Abre-se uma avenida de oportunidades a trabalhadores e empreendedores. O transporte aproxima a casa do trabalho, da escola, da creche, da unidade de saúde.
A geração de trabalho e renda é prioridade absoluta na nossa gestão. Com o Linhão queremos em seis anos criar 30 mil empregos. No Barracão Industrial, por exemplo, que funciona junto ao Linhão, devemos abrigar micro e pequenos empresários. Durante dois anos, esses novos empreendedores vão receber apoio técnico e orientação da prefeitura para consolidar seus negócios.
Dentre as nossas prioridades também temos o avanço social, oferecendo educação e saúde, além de infra-estrutura urbana. Para nós, qualidade de vida é artigo de primeira necessidade. A mortalidade infantil é a mais baixa da história da cidade e Curitiba investe em educação cinco vezes mais que o determinado pelo governo federal.
Queremos fazer de Curitiba, nesses 306 anos, um canteiro de obras, oferecendo ao curitibano as condições necessárias para ele gostar cada vez mais de sua cidade. Isso é identidade, é auto-estima. Nós queremos que o curitibano sinta orgulho de morar em Curitiba, mesmo que seja lá no Pantanal.
Assim pode vir o próximo século, o próximo milênio, pois Curitiba é uma cidade que avança e tem sido mais forte que seus problemas. E vai continuar nesse caminho que aponta para o futuro pela via do trabalho. O futuro feito pela transformação que, no fundo, nada mais é do que a somatória de todas as histórias dos curitibanos.
- CASSIO TANIGUCHI é prefeito de Curitiba.


