A política, uma das mais importantes atividades do espírito humano, como instrumento de solução dos problemas sociais, às vezes também é um jogo de truques que atingem, ou não, suas nobres finalidades. Em qualquer hipótese, os ardis dos atores políticos geram desconfiança e animosidade, podendo comprometer a própria política e seus objetivos.
É que na base da prática desses truques está o princípio antidemocrático, segundo o qual os fins justificam os meios. Não faltam, na história, reações violentas dos povos a políticas que talvez até ajudassem a realizar seus anseios, mas foram repelidas pelo fato de poucas pessoas acreditarem que a verdade pudesse estar por trás de golpes baixos e mentiras.
Foi esse o caso da subcomissão do Senado que apurava o possível envolvimento de Eduardo Jorge, ex-secretário de Fernando Henrique Cardoso, no rombo de R$ 169,5 milhões das obras do foro trabalhista de São Paulo, de que é acusado o juiz foragido Nicolau Santos Neto.
A subcomissão não dispunha de meios legais para abrir o sigilo bancário, fiscal e telefônico de EJ. Assim, frente aos senadores – a maioria ligada ao governo, que vetara a criação da CPI capaz de exigir aquelas medidas – o ex-ministro brincou de prestar depoimento. Como as investigações, ali, fossem inviáveis, a oposição retirou-se da subcomissão.
Esperava-se, porém, que os representantes da maioria governista continuassem a investigar o assunto, para preservar a própria imagem e limpar a do governo, tão explicitamente contrário à CPI. Mas nada. Eles também desistiram da subcomissão, até com alívio. A minoria ainda pediu à presidência do Senado que solicitasse ao Banco Central a quebra do sigilo bancário de EJ, proposta essa, porém, sem chances de acolhimento nos escalões governamentais.
E ficamos assim. O caso EJ persiste, mas logo será esquecido, sob o silêncio da fauna que despreza a política. A menos, claro, que os jovens promotores federais o investiguem e peçam à Justiça, em face de indícios já colhidos ou que colherem, o fim dos sigilos protetores do ex-ministro. É improvável que os juízes indefiram tal pedido, que busca a verdade para recuperar o dinheiro público roubado e punir os ladrões. O que o governo não fez e o Senado não quis fazer só reforçou as convicções dos chamados ‘‘analfabetos políticos’’, de Brecht.
‘‘O analfabeto político’’, diz ele, ‘‘não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas. Esse analfabeto é tão burro que se orgulha e estufa o peito, dizendo odiar a política. Não sabe o imbecil que a ignorância política faz a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos: o político vigarista e pilantra, corrupto e lacaio de empresas nacionais e multinacionais.’’
Mas não só isso: tal analfabetismo destrói instituições e gera injustiças que agravam e consolidam os aspectos mais perversos das diferenças entre seres humanos, países e povos.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

mockup