O amanhã dos nossos dias
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de dezembro de 2002
Gaudêncio Torquato 
Pequena é a parte da vida que vivemos. Ao invocar Sêneca, neste último artigo do ano, peço aos leitores que me honram com sua leitura, licença para sair da esfera política e abordar um aspecto que, só recentemente, passou a impregnar a minha visão de vida: a insistência com que usamos o amanhã para justificar as nossas necessidades. Há sempre um amanhã no cotidiano de cada um, a funcionar como leito para acolher grandes esperanças. Desse modo, o amanhã de nossas mentes é uma espécie de fuga que nos remete à idéia de conforto, mais realizações e mais felicidade.
Pois bem, por transformar o amanhã na força das conquistas que haverão de vir, o ser humano deixa de usar o hoje, o tempo presente, para a realização de grandes atos, deixando-se levar pela indiferença, perdendo parcela importante de uma vida que, na visão do grande filósofo romano, nos foi dada com generosidade para o emprego do bem. Esbanjando tempo, constrangidos pela fatalidade, muitos passam pela vida sem a terem percebido, abreviando, assim, o curso de uma existência que poderia ser mais próspera e feliz, além de maltratar sua própria natureza.
Apreciar a beleza da existência humana é um conselho que, infelizmente, só abandona a conotação piegas para ganhar pleno sentido quando nos defrontamos com a ameaça de sua própria perda. De repente, diante da completa escuridão, descobrimos quanto tempo perdemos com pequenos contratempos, quanto valor atribuímos às coisas materiais, em detrimento das grandes alavancas do espírito, entre as quais a fortaleza da solidariedade, a nobreza dos gestos calorosos da amizade, a força inabalável das correntes de fé. É claro que não podemos fugir da arena das demandas materiais, até porque elas nos darão o alento para enfrentar grandes desafios. Não podemos, porém, deixar ao relento virtudes tão esquecidas pela azáfama do cotidiano. Nos grandes momentos de dor e tristeza, são elas que acalentam o coração, dando força à acepção do velho Confúcio, para quem é o homem quem pode ampliar o caminho, não sendo o caminho que amplia o homem. O que é grande no homem é sua capacidade de ser ponte e não meta.
Valorizar mais a vida, esta é a grande lição que o infortúnio nos ensina. Significa fazer resplandecer valores humanos que, temos de admitir, não têm sido elevados às planuras do mundo material: a chama da solidariedade, a grandeza da generosidade, a beleza da gratidão, a força do amor, a nobreza da tolerância, a magnitude da humildade, a singeleza da temperança. Aplicar um pouquinho desses condimentos no caldo dos nossos dias dará substância ao nosso organismo espiritual, fortalecendo as estruturas para suportar com dignidade e equilíbrio as ondas perigosas dos mares cada vez mais tempestuosos desse mundo conturbado.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político.


