Nenhum governo consegue atender a todos, em tudo, o tempo todo. Daí a sina de enfrentar a oposição dos descontentes. E o pior é que isso é mero juízo de constatação da natureza da coisa. A arte, o conhecimento e a técnica de gerenciar o poder revelam que a busca do chamado ‘‘bem-comum’’ é um processo. Processo. Significa que a governança ora avança, ora pára, ora recua, depois avança, avança, pára etc. Isso diante do povo faminto de uma fatiazinha do tal bem para todos.
Que bom seria se a diversidade dos interesses das pessoas fosse encaixável direitinho, um interesse complementando solidariamente o outro. E governante só teria que tomar a batuta nas mãos e reger a harmonia da disciplinada orquestra.
O problema reside no fato de que tantos interesses nem sempre convergem para um mesmo ponto. Os proprietários rurais, por exemplo, querem dizer sua frase num solo de oboé mas são cortados pelo vibrar dos pratos e tímpanos dos que se dizem trabalhadores rurais sem-terra. Os trabalhadores da indústria gostariam de arriscar pelo menos um ‘‘alegre mas não muito’’ de violinos, e eis que os industriais chegam com suas notas graves de trombone de vara. Sem contar os até bons projetos de governo que caem no ridículo na hora da execução, por incompetência ou má-fé de escalões subalternos. Ainda tem os malabarismos licitatórios, que fazem jorrar dinheiro público pelo, e para, ladrão. Agora olhem o nosso maestro-governante, ofegante, cabelos desgrenhado, olhos esbugalhados, casaca amarrotada, gravata desfeita, mangas arregaçadas, suando em bica sem saber o que fazer para agradar a todos os músicos de cada naipe.
Pois nessas brechas de descompasso a oposição política faz seu serviço, no Brasil. Necessário especificar, porque aqui pouco adianta vir o presidente da República pedir compreensão de todos os partidos políticos, para que todos se dêem as mãos e lutem por um país melhor. O negócio da oposição é botar as mãos no poder, custe o que custar - e a cada vez que o presidente baixar a guarda e sorrir, levará um direto de esquerda no meio dos dentes.
Quando Lula, o eterno candidato do PT à Presidência, perdeu pela terceira vez as eleições, deu entrevista dizendo que não daria trégua ao governo de Fernando Henrique Cardoso. E não estava brincando. Os tucanos e os pefelistas ficaram tão concentrados, e aflitos, na disputa do segundo turno em São Paulo, que não perceberam o preço do descuido em Minas Gerais - onde o presidente Cardoso, para acalmar o velho Itamar, deu só um apoio discreto ao candidato do PSDB. O excesso de autoconfiança de FHC deu topete em Minas.
Itamar Franco, antes mesmo de praticar um único ato administrativo de governança, antes de exercer de fato o mandato de governador, para mostrar, afinal, sua competência, olhou a contabilidade do Estado e disse que daquele jeito não ia dar. Declarou guerra contra o Palácio do Planalto. Embirrou e rompeu unilateralmente o contrato de renegociação da dívida que o Estado tinha com a União. Moratória unilateral, vulgo calote. Criou a crise e fez do calote o álibi de seu imobilismo gerencial, às custas do efeito-dominó contra a economia mundial. Fez mais ou menos o que os generais argentinos fizeram em 1982, quando periclitava a ditadura militar na Argentina: invadiram as Ilhas Malvinas, que os ingleses, os donos do arquipélago, chamam de Falklands. Conseguiram algumas semanas de euforia patriótica enquanto mandavam centenas de jovens recrutas, mal-treinados e mal-equipados, serem trucidados pelos soldados profissionais britânicos. (A Inglaterra já tinha reconquistado as ilhas e os argentinos ainda comemoravam a ‘‘vitória’’ contra a Dama-de-Ferro Tatcher).
Itamar ficou uma semana como ‘‘herói’’, mas feriu o princípio do bom-pagador, deu mau-exemplo aos mineiros, e arranjou uma enorme dor-de-cabeça para todos os brasileiros que pagam seus impostos em dia, cujo dinheiro, nos cofres da União, está fazendo frente ao calote do desgoverno de Minas. Ele está isolado, só consegue empolgar estudantes que militam em política estudantil stalinista, ninguém de peso aparece para lhe dar um ‘‘abraço de afogado’’. O PT nega o isolamento, mas até agora não jogou nem bóia para o desgovernador - só corda.
Itamar continua aparentemente firme, pelo menos diante de sua claque cativa. Chegou a comparar-se a Tiradentes, o que pode ter feito alguns pensarem que o caso não é de impeachment mas de interdição. Seja lá como for, ele está abusando do perdão que, por força do dito popular, devemos deferir às traquinagens dos velhos e das crianças.

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