A entrevista do juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, da 5 Vara Criminal de Vitória-ES (Opinião, pág. 3, 21/02), merece reflexão, principalmente no âmbito do Poder Judiciário e do setor público em geral. Já para a sociedade, a postura do juiz é um alento, alimenta esperanças de que é possível sonhar com segurança e justiça. Além da sua competência, ele não se deixa intimidar. Para acreditar num país em que a impunidade e os interesses políticos permeiam decisões que mexem com a vida e o futuro das pessoas, é preciso que hajam mais magistrados como Carlos Eduardo Ribeiro Lemos. Eles, certamente, existem. Felizmente.

Ameaçado por punir políticos corruptos e poderosos, o jovem magistrado mantém postura firme e, acima de tudo, discreta. (Esta FOLHA foi um dos jornais a entrevistá-lo). Ele tem opinião crítica sobre o próprio setor, quando diz: ''Certos tribunais não cassam os juízes corruptos porque a cúpula está sendo beneficiada de alguma forma por algum esquema de venda de decisões''.

Eis uma afirmação grave, importante e que coloca a Justiça numa condição que não lhe permite mais permanecer na zona de conforto. É preciso tomar uma decisão (que não seja a de punir ou ''isolar'' o autor da crítica, como costuma fazer o corporativismo que existe em quase todas as atividades profissionais e políticas).

Perguntado se o controle do crime organizado não é uma questão de vontade política, Lemos diz que sim. Que crime organizado é um vício de linguagem. ''Não temos um crime e sim uma organização criminosa.'' E pergunta: ''De onde chegam as verbas de campanha? Com qual interesse as empresas doam?''. Mexer com certas organizações significa mexer com forças públicas beneficiadas por essas organizações. Isto certamente vale para o tráfico.

''Nós, juízes conscientes e independentes, temos que assumir nosso papel social para fazermos a faxina em nossa casa, objetivando dar ao Judiciário a organização necessária para que ele cumpra a função de garantidor de direitos e distribuidor de justiça.''

Outra afirmação - que vale para todas as profissões do setor público e não apenas ao Judiciário: ''O juiz deve ser menos carreirista, menos preocupado em agradar superiores hierárquicos e ser mais atento e imbuído em construir novas formas de solução para antigas questões do nosso povo''.

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