O álcool, o fósforo e o crime
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sábado, 10 de novembro de 2001
TT Catalão 
Xe retama oicó pindoetá (Minha terra tem palmeiras) Mamo nheengara sobiá (Onde canta o sabiá) Guirá iké onheengara baê (As aves que aqui gorjeiam) N'onheengara amoeté jabê (Não gorjeiam como lá). O professor Joubert Di Mauro fez a versão, em tupi, para o Gonçalves Dias clássico.
Soa estranho falar tupi ou, ao menos, reconhecer que havia uma civilização belíssima nessas terras, hoje Brasil. Mata-se a língua, morre um povo. É não aceitar sua existência como cultura, logo, expressão de vida. Exterminar um repertório de palavras é isolar a pessoa até que ela se sinta tão ''sem sentido'' que entregue os pontos. Isso vale para o falar-índio e o falar-povão. O trecho é para lembrar quantos Galdinos a sociedade brasileira queimou. A começar pela cultura excludente dos dominadores.
Longe do folclore delirante de um Policarpo (personagem de Lima Barreto louco para restituir origens nacionalóides), vale refletir o tanto de amnésia cultural na abordagem do crime contra Galdino. É pouco observar apenas o episódio de barbárie dos rapazes ''a fim de curtir uma adrenalina diferente'' tão glorificada pelos obsessivos agitos da ditadura do entretenimento que a mídia tanto reforça. Parece ser, o choque maior, o fato de pertencerem à classe média, e assim, sem motivos para tal atitude. Como se o requinte da fera só germinasse, justificado, no gueto.
Até chegar ao terrível momento do assassinato, o ''tirar uma onda''. Antes do planejamento, do álcool, do fósforo e da, enfim, discutível adrenalina liberada, uma série de queimas ''autorizaram'' o desprezo pela vida do outro, do estranho, daquele ''nada'' abandonado que dormia na parada de ônibus.
Queimamos florestas dos Galdinos, devastamos e loteamos as terras dos Galdinos, aniquilamos falas, cantos, ritos, e modos de existir dos Galdinos.
Até que, em supremo martírio, um Galdino arde na ação covarde de um grupo adestrado no hábito da exclusão, onde o outro não vale nada. Mesmo solidário à dor de seus familiares e sem cair na armadilha do julgamento prévio e fácil, é importante avaliar o caldo cultural que colocou o álcool e o fósforo nas cabeças evidentemente caóticas dos jovens. O que não atenua a culpa.
Galdino foi queimado como um ''pobre coitado qualquer'', como se fosse mendigo (sem história), sem cara, sem família, sem laço com a sociedade que lhe tomou tudo e só lhe deu a sórdida laje de ponto de ônibus como altar, imolado. Continua a longa rede de enredos sórdidos de uma sociedade que despreza o estranho, o outro, os párias da pátria. Saciar a sede de punição como justiça, sem rever os valores que levaram ao crime, é mera catarse para a platéia. E, lamentavelmente, aguardar a próxima vítima.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília


