No dia 5 deste, aconteceu em Londrina o Seminário do Agronegócio, uma iniciativa da diretoria da Sociedade Rural do Paraná. No Recinto Horácio Sabino Coimbra, lotado, a expectativa era grande enquanto se aguardava as autoridades políticas convidadas, entre elas, o vice-presidente da República, Sr. Marco Maciel.
O tema do Seminário era de fundamental importância não só para o Paraná, mas para a economia brasileira, pois como analisou o presidente da Sociedade Rural do Paraná, Sr. Francisco Luiz Prando Galli, em recente artigo publicado neste mesmo ‘‘Espaço Aberto’’, o agronegócio representa 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e é responsável por complexa rede de produtos e serviços, gerando, portanto, milhões de empregos dentro desta cadeia produtiva.
Este é um setor que deveria receber da parte do governo e da sociedade maior atenção, mas que não recebe, além de estar sendo sistematicamente desestruturado pelo movimento dos chamados sem-terra através das invasões de propriedades. Inclusive, o MST, por suas ações ilegais, que incluem desde a invasão e a destruição de fazendas produtivas até chantagens, ameaças físicas e assassinatos, há muito deixou de lado a oportunidade histórica de protagonizar uma verdadeira reforma agrária que poderia inseri-lo no agronegócio, para se transformar num movimento político-ideológico.
Quanto ao Seminário, depois das mais de 600 pessoas - entre elas sócios da Sociedade Rural do Paraná, autoridades políticas como o líder do governo, deputado federal Luiz Carlos Hauly, senadores, deputados federais, deputados estaduais, vereadores, prefeitos, demais autoridades e participantes - estarem acomodadas e a imprensa a postos, foi iniciado com o tradicional atraso que ocorre nestas ocasiões. Após a mesa ser composta começaram os discursos, e aqui cabe algumas reflexões sobre os políticos e o agronegócio.
O primeiro a discursar foi o presidente da entidade promotora do Seminário, Sr. Francisco Luiz Prando Galli. De maneira polida porém firme, ele expôs com bastante lucidez e discernimento suas idéias, defendeu a classe dos agropecuaristas, cobrou corajosamente as ações necessárias por parte do governo. Deste modo, Galli empolgou o auditório pela autenticidade de um discurso que fluiu com a espontaneidade de quem domina o assunto, sendo várias vezes aplaudido calorosamente. Seu sucesso, contudo, não derivou da retórica à moda dos políticos, aquela muito usada principalmente em comícios, quando a fala emitida se transforma no canto de sereias das promessas impossíveis, dos agrados simulados, dos ataques calculados para agradar públicos. O discurso de Francisco Galli foi o do verdadeiro líder, direto, sincero e isento dos ostensivos toques populistas que já vão cansando e soam ultrapassados.
Também agradou bastante o que foi dito pelo Sr. Roberto Rodrigues, presidente da Aliança Cooperativa Internacional. Numa exposição bem articulada e cativante, demonstrou a importância do agronegócio, discorrendo sobre o assunto com a segurança do profissional bem preparado. O que podia ser árido se tornou interessante, e a platéia devolveu com palmas os momentos que lhe proporcionou Roberto Rodrigues, inquestionavelmente também um líder do seu setor.
Começaram, então, os discursos políticos, mas eram como que desambientados, não entravam em sintonia com os temas objetivos e concretos levantados no Seminário. Evidentemente, o realismo das falas dos líderes do agronegócio punha em evidência o irrealismo da esfera política, com sua a retórica superficial e difícil de suportar que caia em cascatas tediosas sobre o público.
Quando se assiste a essas coisas, causa espanto pensar que dependemos dos políticos e de seus burocratas para tudo que diz respeito a nossa vida, desde o nascimento até a morte. Afinal, o ar que respiramos, a água que bebemos, o nível dos salários, os preços dos artigos, o custo do crédito, o valor do dinheiro, tudo enfim depende de decisões políticas. E em última instância, quando um país declara guerra a outro, isto é uma decisão política que se torna literalmente um caso de vida e de morte.
Essa dependência estrita, se por um lado nos faz entender a importância da política, por outro faz pensar que seria necessário que esta esfera se modernizasse mais, que estivesse mais sintonizada com os tempos atuais. Evidentemente, existem bons políticos, aqueles com características de estadistas, que como disse Max Weber ‘‘vivem para a política’’. Mas estes infelizmente são poucos, prevalecendo os que ‘‘vivem da política’’ . E como se para um Rafael Greca existissem milhares de Itamar Franco. E num país como o nosso, que passa longe da meritocracia, é impressionante a quantidade de mediocridades governantes, seja no Executivo, seja no Legislativo, do nível federal passando pelo estadual e o municipal.
Para se corrigir pelo menos um pouco desta ‘‘distorção’’, seria necessária uma séria reforma eleitoral que tratasse entre outros aspectos o da fidelidade partidária, o das normas para a existência dos partidos, o do número mínimo de deputados e senadores por Estado, o das novas regras relativas a imunidade parlamentar etc. Desta maneira, os partidos poderiam adquirir uma certa consistência que hoje não possuem, e os políticos teriam que se adequar a normas que impediriam em parte o excesso de comportamentos indesejáveis.
Infelizmente, um bom projeto de reforma política foi recentemente arquivado por conta da manobra do senador Roberto Freire (PPS), que apenas pensou em resguardar seu micropartido que não sobreviveria num novo sistema eleitoral. E justamente este tipo de atitude é que faz o contraste entre o arcaísmo de certos políticos e o agir moderno e concreto dos homens do agronegócio.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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